RIO - A violência do Rio deu mais uma prova de que não distingue vítima, local ou horário. Por volta do meio-dia desta quinta-feira, o coronel da PM Luiz Gustavo Teixeira, comandante do batalhão do Méier, foi assassinado a tiros na Rua Lins de Vasconcelos, uma das mais movimentadas do bairro. O carro em que estava, um Gol branco, foi atingido por 18 disparos. O cabo Nei Filho, que dirigia o veículo, ficou ferido. Investigadores da Divisão de Homicídios da Polícia Civil acreditam que eles seriam alvos de uma tentativa de assalto: quatro homens desceram de um carro que parou à frente, e, no momento da abordagem, ao vê-los armados, o praça sacou uma pistola e atirou, dando início a um intenso confronto. Em seguida, os autores do crime fugiram em direção ao Complexo do Lins. Teixeira se tornou o 111º policial militar morto este ano no estado. Três horas horas depois, um outro PM, o cabo Djalma Veríssimo Pequeno, foi assassinado dentro de um shopping em Guadalupe, ao tentar impedir um roubo a uma joalheria. Lotado no 41º BPM (Irajá), ele estava de folga, e um colega de farda que o acompanhava também foi baleado. O Rio teve, assim, seu 112º PM assassinado.
Teixeira tinha 48 anos e estava à frente do 3º BPM (Méier) desde maio de 2016. Casado, pai de dois filhos, o coronel foi morto com um tiro no peito no dia do aniversário de 75 anos de sua mãe, que ficou em estado de choque ao receber a notícia do crime. Ele entrou para a Polícia Militar em 1991, e foi um dos primeiros oficiais da corporação a criar um grupo no aplicativo WhatsApp para troca de mensagens com lideranças comunitárias sobre questões de segurança — na época, ele comandava o 16º BPM (Olaria), e sua iniciativa o levou a ser homenageado pela Assembleia Legislativa, em 2015. Era um policial querido pelos moradores da região do Méier: ontem, quando souberam de sua morte, vários deles foram ao Hospital Municipal Salgado Filho, para onde o corpo havia sido levado.
— Vim aqui para tentar dar um pouco de conforto à família. Ele não merecia isso, era um homem que ouvia todo mundo, um comandante de batalhão muito dedicado ao trabalho — disse o aposentado José Gouveia.
O empenho de Teixeira, no entanto, não foi suficiente para acabar com a onda de violência que atinge uma região de classe média onde há 23 favelas, a maioria delas no Complexo do Lins. Os índices de roubos de veículos e homicídios aumentaram este ano, mesmo com o policiamento reforçado pela operação Méier Presente, que começou em dezembro de 2015. Apesar da queda no número de roubos de rua (1.466 casos em 2015, 1.378 em 2016 e 989 nos primeiros oito meses deste ano), a PM não conseguiu impedir uma série de arrastões. De janeiro a agosto, 407 veículos foram levados por bandidos — é a maior estatística deste tipo de crime desde 2009, considerando todos os meses de cada ano. Nas ruas Lins de Vasconcelos e Hermengarda, de janeiro a junho,42 pessoas foram assaltadas.
Outro índice que subiu no Grande Méier foi o de homicídios. Já são 13 este ano, contra 11 ocorridos ao longo do ano passado. É o maior número desde 2011. Em 2015, tinham sido quatro.
Logo após o assassinato de Teixeira, enquanto moradores filmavam as tentativas de socorro ao oficial, câmeras de monitoramento do trânsito gravavam imagens da fuga dos criminosos. Numas delas, um dos criminosos rende o motorista e os passageiros de um táxi, mas rapidamente abandona o veículo e entra numa rua, de onde sai de motocicleta com um comparsa. Peritos da Divisão de Homicídios da Polícia Civil disseram que, durante a ação dos bandidos, foram efetuados 32 disparos.
Investigadores suspeitam que os criminosos se dirigiram para o Morro da Cachoeirinha. Cerca de 300 policiais militares de vários batalhões da Zona Norte fizeram operações em favelas da região, e chegaram a fechar a Estrada Grajaú-Jacarepaguá e acessos à Linha Amarela. Um suspeito teria sido identificado, mas, até o fim da noite de ontem, ninguém havia sido preso. O ministro da Defesa, Raul Jungmann, ao saber da morte do comandante, acionou o setor de inteligência do Exército para ajudar a investigação.
Após a morte de Teixeira, o comandante-geral da PM, coronel Wolney Dias, disse ter sugerido à Secretaria estadual de Segurança o retorno das Forças Armadas ao Complexo do Lins.
— O pedido (ao governo federal) não foi formalizado, mas a presença (das tropas) se faz necessária — afirmou Dias, que, emocionado, lamentou a perda do amigo. — Ele tinha o sonho de comandar o 3º BPM porque morava na região, foi nascido e criado ali. Sempre estará vivo no meu coração, era muito querido por todos.
Em nota, o governador Luiz Fernando Pezão também lamentou a morte do coronel. “Não vamos descansar enquanto os responsáveis por esse crime hediondo não estiverem nas mãos da Justiça”, diz um trecho do comunicado, publicado no Twitter. Já o secretário estadual de Segurança, Roberto Sá, afirmou à Rede Globo que a morte de Teixeira representa um “atentado à democracia, ao estado” e prometeu a captura dos responsáveis.


