RIO — Um dos principais guardiões da memória do país — lá estão mais 55 quilômetros de documentos em papel, 1,7 milhão de fotografias e negativos e uma coleção de livros raros que ultrapassa oito mil títulos — o prédio do Arquivo Nacional, na Praça da República, quase foi invadido. Como noticiou Ancelmo Goes, na quarta-feira dois homens trocaram tiros com vigilantes na hora do almoço. Preocupada, a Associação de Servidores do Arquivo Nacional (Assan), enviou à diretoria-geral da instituição um pedido de explicações sobre as medidas de segurança que serão tomadas. De acordo com a Assan, este ano houve redução do número de vigias atuando no prédio, que não tem sistema de monitoramento por câmeras. O caso foi registrado na 4ª DP (Praça da República).
Nas redes sociais, funcionários relataram que os bandidos conseguiram entrar na área externa no imóvel. Os disparos ocorreram na escadaria que dá acesso ao Bloco P, próximo à sala de consultas.
“Não foi apenas uma troca de tiros, foi tentativa de invasão por parte de indivíduos armados. Graças a ação do segurança que percebeu que um deles estava nervoso, impedindo que eles invadissem o prédio. Talvez esse episódio finalmente sirva para mostrar o quão vulnerável estamos. Atitudes tem que ser tomadas. Diminuição do tempo de atendimento, aumento da guarda, colocação de câmeras de segurança, etc”
Em nota divulgada pelas redes sociais, o presidente da Assan, Rodrigo Mourelle, ressalta que o número reduzido de seguranças seria resultado do “corte de verbas ocorrido este ano” na instituição.
Em julho, O GLOBO publicou uma reportagem sobre o corte de verbas no orçamento Arquivo Nacional, que completará 180 anos de fundação em janeiro.
De acordo com a Assan, em 2016, o Arquivo Nacional teve gastos de R$ 22 milhões com pagamentos de luz, água, gás, serviços de limpeza e de segurança. Mas, por contenção de despesas, o Ministério da Justiça cortou 36% do orçamento deste ano. Para 2017, o arquivo teve R$ 14 milhões. Na época, a direção do arquivo explicou que os cortes seguem uma determinação do governo federal, mas garantiu que os serviços oferecidos à população não serão comprometidos.
A redução no orçamento, de 36% em um ano, prejudica a manutenção do edifício e compromete, inclusive, a segurança do acervo. Segundo denúncia da Assan, uma vistoria do Corpo de Bombeiros, feita no ano passado, constatou que a tubulação de rede de hidrantes do Bloco F — que guarda 90% de todo o acervo, inclusive as obras raras — encontra-se “em avançado estado de deterioração” por causa da corrosão.” O edifício tem marcas de pichação, vidraças quebradas (duas com marcas de tiros) e também grades arrebentadas.
O prédio principal, um edifício de estilo neoclássico do século XIX, tombado pelo Iphan, ainda não sofre com problemas de infraestrutura.
Procurada pelo Globo, a direção do Arquivo Nacional ainda não comentou o caso.
Dentro do edifício, estão documentos raros e farto material sobre a historia do país, entre eles documentos sobre a Ditadura (1964 a 1985), acervo da Comissão da Verdade e documentos de perseguidos políticos. No arquivo também ficam guardados registros de nascimento, casamentos e de óbitos na Cidade e nas circunscrições da cidade, entre 1929 e 1961. O passaporte de Santos Dumont e os originais da Lei Áurea e da Lei do Ventre Livre também fazem parte do acervo.



