RIO - Uma das principais unidades de emergência da Zona Oeste, o Hospital Rocha Faria, em Campo Grande, será administrado pela RioSaúde, empresa pública de saúde criada em 2013 e responsável pela gestão de três unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) e uma Coordenação de Emergência Regional (CER) na Barra da Tijuca. O anúncio foi feito na tarde desta quinta-feira pelo prefeito Marcelo Crivella durante coletiva na sede da Prefeitura do Rio. Crivella confirmou, como revelou O GLOBO, que o município rescindiu o contrato com a Iabas, Organização Social (OS) que administrava o hospital. A nova administração assume em 45 dias, tempo para que ocorra um processo de transição.
A Iabas era a responsável pela gestão do Rocha Faria desde 2016, mas o atendimento de pacientes, segundo a Prefeitura do Rio, apresentava irregularidades. Na última terça-feira, o Conselho Regional de Medicina (Cremerj) fez uma vistoria na unidade e constatou, entre outros problemas, que na sala vermelha, onde ficam os pacientes graves, a maioria dos monitores cardíacos não funcionava. Na maternidade, o maior problema encontrado pelo Cremerj foi a falta de médicos, principalmente aos domingos. As gestantes que precisam ser submetidas a uma ultrassonografia têm sido levadas de ambulância para realizar o exame em outras unidades da prefeitura, porque não há especialista para operar o equipamento.
Além do Rocha Faria, a Iabas administra na cidade outras 77 unidades de saúde na Zona Oeste e três UPAs em Costa Barros, Vila Kennedy e Madureira.
O economista Ronald Munk, de 60 anos, diretor-presidente do RioSaúde, prometeu um choque de gestão no Rocha Faria para melhorar o atendimento da população.
— Convido vocês todos a daqui a três meses no máximo a ver o que é o Rocha Faria hoje é o que vai ser — afirmou o economista.
Munk garantiu que os funcionários da OS que optarem pela permanência poderão fazê-lo mediante contrato temporário com a RioSaúde.
— Vamos fazer um processo de seleção simplificado — afirmou o economista.
O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, reconheceu que o município atravessou em 2017 uma grave crise financeira. No caso da saúde, ele revelou que a contratação de 250 equipes da saúde da família em 2016, na administração de Eduardo Paes, teve impacto no orçamento da saúde em 2017.
— O município tem uma dívida acumulada de R$ 10 bilhões para pagar. Somente em juros pagamos R$ 1,5 bilhão este ano — disse Crivella.
O secretário municipal de Saúde, Marco Antônio de Mattos, lembrou que em 2017 foram necessários cortes nos recursos destinados às Organizações Sociais (OS).
— Cortamos quase R$ 300 milhões das OS, mas não foi suficiente — revelou Marco Antônio.
O médico e vereador Paulo Pinheiro (PSOL), membro da comissão de Saúde da Câmara Municipal, criticou a gestão do município na área de saúde. Segundo ele, o modelo de terceirização na saúde não funciona.
— O que aconteceu com o Rocha Faria revela que o modelo adotado pelo município faliu. Sabemos que a receita do município caiu em 2017. Isso é verdade. Mas faltou gestão, faltou prefeito. Ele não poderia cortar dinheiro da saúde porque isso mata pessoas. Morreu gente no Rio por falta de médico e atendimento — afirmou Paulo Pinheiro.
A administração da rede municipal de saúde do Rio é dividida entre Organizações Sociais (OSs) que controlam 52% das unidade e a Prefeitura do Rio, responsável pela gestão de 48%.
— O modelo terceirizado é caro. O contrato com a Iabas de dois anos (24 meses), só terminaria em 2018. Ele previa um repasse total de R$ 233 milhões, algo em torno de R$ 9,5 milhões por mês. É muito caro e está provado que não tem resolvido — afirmou Paulo Pinheiro.
Histórias de pessoas que foram mal atendidas no Hospital Rocha Faria não faltam. No fim de outubro, o autônomo Júnior Cavalcanti passou por uma cirurgia no pé na unidade de saúde, após sofrer um acidente de moto. No entanto, o pós-operatório se tornou um verdadeiro calvário para ele, que trabalha com envernização de veículos e não consegue exercer o ofício há quase dois meses, por não conseguir tocar o pé esquerdo no chão. O período de recuperação, que tinha previsão de durar três meses, poderá dobrar para seis, pois um erro na colocação dos pinos prejudicou o processo de calcificação dos ossos do pé operado, segundo Vanuza Cavalcanti, irmã de Junior. Nos últimos dois, dias, o autônomo já havia ido à unidade, mas somente nesta quinta-feira conseguiu ser atendido. Crise hospitais municipais.
— Quando ele veio ao hospital pela primeira vez, logo após o acidente, achávamos que o atendimento havia sido ótimo, pois os médicos foram atenciosos e não demoraram para fazer a cirurgia. Somente algumas semanas depois, quando percebemos que meu irmão não estava se recuperando bem e fomos fazer um exame de raio X na Clínica da Família (Arthur Zanetti), o médico nos alertou sobre o problema na colocação do pino. Agora, estamos tentando agendar uma cirurgia corretiva o quanto antes, pois meu irmão já está há dois meses sem poder trabalhar — relatou Vanuza, que tem cuidado de Júnior desde o acidente.



