RIO - No alto de uma tela, a gravação feita por câmeras de segurança indica o dia e a hora do crime: quarta-feira da semana passada, 22h25m. Um carro preto para na porta de uma pizzaria em Santa Teresa, e, logo em seguida, seis homens armados saem do veículo com pistolas e facas. O grupo invade o estabelecimento, rende clientes e funcionários e foge com bolsas, mochilas, celulares, dinheiro e cartões de crédito. O arrastão foi filmado por equipamentos instalados na semana anterior, depois de o restaurante ter sido alvo de dois assaltos em menos de um mês.
Em um outro ponto do bairro, o GLOBO viu cenas de um segundo arrastão, gravadas dentro de um bar localizado no Largo do Curvelo. Nas imagens, bandidos armados descem de um automóvel branco e assaltam todos os fregueses, antes de pegarem o dinheiro do caixa. Na saída, ainda roubam algumas pessoas que caminhavam pela calçada.
As duas ações estão longe de serem casos isolados em Santa Teresa: em apenas 21 dias, foram sete arrastões, o que vem esvaziando a noite do bairro.
— São acontecimentos apavorantes por vários motivos. Os bandidos que me atacaram tinham aparência de adolescentes. Estavam nervosos e armados, e parecia que tinham se drogado. A gente nunca sabe o que pode acontecer numa situação assim — afirmou uma comerciante, que pediu para não ser identificada por temer represálias.
Estatísticas do Instituto de Segurança Pública (ISP) atestam o aumento da violência em Santa Teresa. Em seis anos, o número de registros de roubos de rua subiu 174%. Passaram de 172 casos, entre janeiro e outubro de 2012, para 472, no mesmo período de 2017. Também cresceu a quantidade de veículos roubados: nos primeiros dez meses de 2012, segundo o ISP, o bairro registrou 36 casos, contra 129 este ano — um salto de 258,33%. Já os registros de assaltos em estabelecimentos comerciais aumentaram de seis para 21.
— O comércio do bairro é o que mais tem sofrido com o aumento da violência. A crise nos tirou clientes, mas os crimes estão sepultando os negócios — afirmou um outro comerciante.
Comparando os primeiros dez meses de 2017 com o mesmo período de 2016, os roubos de rua subiram 21,34% em Santa Teresa. Houve ainda aumento de 16,22% nos casos de roubos de carro e de 31,25% nos assaltos a estabelecimentos comerciais. Os indicadores do ISP indicam ainda que o crescimento na quantidade de roubos contra lojas do bairro está na contramão de uma outra estatística deste tipo de crime: na média do estado, houve uma queda de 9,7%.
— Está todo mundo com medo de andar nas ruas à noite. E logo em Santa Teresa, bairro famoso pela boemia — lamentou uma moradora.
Nas cenas gravadas do assalto à pizzaria, bandidos usam óculos escuros e bonés, numa tentativa de impedir que sejam identificados. Um rapaz se esforça para cobrir a cabeça com um casaco, enquanto segura uma faca. Não adiantou, pois ele é bem conhecido no bairro. Foi apontado por vítimas como participante de outros arrastões feitos no mês passado. O assaltante e seus comparsas já invadiram bares, restaurantes, lanchonetes e até um bazar. Em todos os casos, de acordo com a polícia, usaram carros roubados.
O arquiteto Paulo Saad, presidente da Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa (Amast), afirmou que os ladrões que agem no bairro estão ficando mais violentos.
— A gente protesta contra os crimes e cobra mais policiamento. Somente este ano fizemos quatro manifestações — reclamou Saad.
Nas duas últimas semanas, a equipe de reportagem do GLOBO percorreu o bairro à noite. Encontrou ruas vazias e muitos bares e restaurantes fechados.
O comandante do 5º BPM (Praça da Harmonia), tenente-coronel André Luiz Caetano Gomes, admitiu que enfrenta “dificuldades materiais e humanas” para fazer o policiamento de Santa Teresa. “Nossa mobilidade está sendo comprometida, o que dificulta o serviço preventivo”, disse o oficial, por meio de nota.
Segundo Gomes, de janeiro a outubro deste ano, “o 5º BPM efetuou 259 prisões, recuperou 31 veículos roubados, impediu 128 roubos de rua e e apreendeu 42 armas”.
Policiais da 7ª DP (Santa Teresa) também disseram que trabalham em condições precárias. Eles afirmaram que a delegacia só está funcionando porque vem recebendo doações de material. Em nota, a Polícia Civil reconheceu o problema, mas destacou que intensifica esforços para identificar e prender os autores dos crimes citados na reportagem.



