RIO - Com o pé direito torcido e com muita dificuldade para andar, a esteticista Thaís Almeida, de 25 anos, fez o que é recomendável na rede municipal de Saúde: deixou sua casa na Rua Dois de Fevereiro, no Encantado, e foi até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima, no Engenho de Dentro. Mas não havia ortopedista e, por isso, foi orientada a procurar o Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier. Pegou um ônibus e, mancando muito, caminhou do ponto até a unidade. Foi acolhida para ser atendida por um ortopedista, mas veio a segunda decepção: não havia mateiral para imobilização.
- Torci o pé em casa e está doendo muito. Disseram que o ortopedista está no hospital, mas que poderia ser atendida porque não tem material para imobilizar o meu pé. Me mandaram ir no Hospital Rocha Faria ou um na Ilha do Governador. Vou embora com dores e sem ninguém para me ajudar no caminho. Pensei que aqui iria ser recebida. Vou para casa e amanhã irei até a Policlínica SASE, em Realengo. Lá tem convênio com o SUS, os valores são mais baixos, mas terei que pagar a consulta - comentou Thaís, decepcionada.
O Hospital Municipal Rocha Faria foi uma das três unidades citadas pelo prefeito Marcelo Crivella durante uma discussão com uma médica de família. Segundo ele, não havia problemas de falta de insumos básicos nele nem nos hospital municipais Miguel Couto e Souza Aguiar. Mas não foi isso o que repórteres do GLOBO encontraram. Membro da Comissão de Saúde da Câmara Municipal, o vereador Paulo Pinheiro (PSOL) visitou ontem a unidade e constatou que faltam insumos em várias especialidades.
- O hospital é de administração direta, sem OS. Não tem a atadura (com gesso) nem algodão. Os pacientes que serão operados estão com problemas. Alguns produtos as empresas não querem entregar por causa de dívidas anteriores. Eles temem que também não recebam por estes produtos - comentou. Outro problema grave constatado pelo colorido das roupas de cama é que elas estão sendo levadas por familiares dos pacientes. Compraram alguns, mas os ambientes estão bem coloridos, o que prova que familiares estão levando. Sou lençóis, cobertores e outros objetos coloridos.
Rosângela da Siva Teixeira, de 59 anos, provou a falta de lençóis e cobertrores. Ela é uma das quatro acompanhantes da sogra, Zíbia Pacheco Teixeira, de 80 anos, que está internada na enfermaria há duas semanas aguardando a pressão arterial baixar para poder ser operada. Ontem de manhã, Rosângela chegou atrasada para entrar no hospital como acompanhante e precisou aguardar do lado de fora até as 11h. Ela carregava fraldas e um lençol. E reclamou muito do atendimento na enfermaria e na portaria.
- A gente precisa levar tudo. Não tem fralda, não tem lençol nem cobertor. Comido tem. A enfermaria é uma droga e não há respeito algum no atendimento na portaria. Os médicos são afáveis, mas não conseguem dar conta de tudo. Minha sogra é cardíaca. Estão esperando a pressão diminuir há duas semanas para que possa ser operada. É uma situação difícil que poderia ser amenizada com um pouco de compreensão e respeito - reclamou.
Segundo Paulo Pinheiro, a sala de emergência está superlotada com 12 pacientes a mais. Além disso, a sala amarela, que tem 14 vagas, hoje está ocupada por 22 pacientes.
- A Sala de Emergência está cheia com 34 pacientes. Tem capacidade para 22 e tem 12 a mais. E a sala amarela, com capacidade para sete homens e sete mulheres, hoje tem mais quatro homens e mais quatro mulheres. São pessoas que estão aguardando a solução para os seus problemas e ocupam o vão entre uma maca e outra - disse. - A crise de material está instalada há muito tempo. Essa é a região do escambo com outros hospitais: troca-se, por exemplo, seringas de 20ml por seringas de 10ml e luvas de um tamanho grande por outros números. Esta semana ainda não conseguiram trocar com outros hospitais as seringas de 20ml. E nem receber - relatou.
O vereador contou que o Salgado Filho é um distribuidor de medicamentos, lugar para onde vão pacientes que receberam receitas, por exemplo, em clínicas da família. E criticou o prefeito.
- A farmácia recebeu reforço nos últimos três dias. Mas os medicamentos são distribuídos dentro e fora do hospital. Por exemplo, as clínicas de família passam receitas e mandam os pacientes buscarem a medicação no hospital. Mas faltam antibióticos, anti-inflamatórios, anti-hipertensivos. Todos via oral e em falta. Esparadrapo tem somente o de tamanho pequeno. O maior está em falta. O prefeito Crivella foi inquirido pelas pessoas e ele disse que a crise é nas OSs. Eu também acho que a crise é nas OSs. Mas a crise maior é em quem paga as OSs, que é a prefeitura. Nós temos hoje metade da rede gerenciada por OSs e a outra metade por funcionários estatutários. Este hospital (Salgado Filho) é gerido por administração direta. E o prefeito esteve aqui no aniversário do hospital (no dia 17 de outubro o Salgado Filho completou 97 anos) e comeu bolo no centro de estudos. Mas esqueceu de visitar o hospital. A situação aqui ainda é muito grave. Medicamentos importantes estão faltando, principalmente os orais - reclamou Paulo Pinheiro.
Parentes de pacientes comentam que há alimentação, mas que a qualidade piorou. De acordo com Paulo Pinheiro, isso se deve a três meses de atraso no pagamento à empresa contratada pela alimentação.
- O pagamento à empresa contratada está atrasado três meses. Resultado: piora na qualidade da alimentação. A carne vem dura, vem muita sopa, muito macarrão - denunciou.
O serviço de diálise no CTI também está ameaçado.
- O contrato é de R$ 223 mil por mês. Só que a quantidade de pacientes é maior do que o estabelecido no contrato. Só nos últimos dias ultrapassaram R$ 74 mil em serviços e não receberam - contou.
No Salgado Filho, a dona de casa Alice Pires, de 37 anos, também ficou decepcionada ao procurar socorro de um otorrinolaringologista. Com dores na gargante e no ouvido esquerdo há três dias, ele decidiu procurar um médico. Ela estava usando dipirona para aliviar a dor.
- Mas o efeito da dipirona dura só quatro horas. Decidi que não iria mais me auto-receitar. Mas dei com a cara na porta - lamentou, acrescentando que a orientaram a procurar o Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro.
Marido dela, o segurança Wagner Dias, de 38, foi mais duro.
- Tivemos que trazer nosso filho de 10 anos pois ele não tinha com quem ficar. Nos deslocamos da Piedade em busca de socorro para a minha mulher. E agora? É horrível essa situação. Já estamos acostumados, mas isso é ruim. Não deveríamos nos acostumar com uma situação dessa - avaliou.
Sobre a previsão de piora no atendimento no Hospital Municipal Souza Aguiar feita na manhã desta sexta-feira por uma enfermeira da unidade, que disse que 400 profissionais de saúde irão se aposentar a partir de janeiro, Paulo Pinheiro comentou que a opção por servidores terceirizados vêm causando a redução dos estatutários.
- Muita gente vai se aposentar. O grande problema do Previ-Rio é que muitos se aposentam e não há reposição. Os baixos salários, a falta de condições de trabalho e os poucos concursos fizeram com que a rede municipal diminuísse. Em 2009, quando César Maia deixou a prefeitura, havia 29 mil servidores estatutários e 3,5 mil terceirizados. Hoje, segundo apurou o Tribunal de Contas do Município (TCM), há 24 mil servidores estatutários e 30 mil servidores terceirizados - explicou.



