RIO - Burburinho, quiprocó e babado forte! Haja confusão entre os torcedores da Portela e da Mocidade Independente desde que o título do carnaval deste ano foi dividido entre as duas escolas. As diretorias de ambas as campeãs já vieram a público para dizer que reina a harmonia entre elas. Não adiantou. Os debates seguiram acalorados. E quantas vezes os grupos de discussão na internet andaram em pavorosa por qualquer assunto que envolvesse a Águia e a Estrela Guia? Pois bem. Quem fala agora são representantes máximas do matriarcado de cada agremiação, as baianas: a paz, garantem elas, continua selada entre as duas coirmãs.
- Não há nada de inimizade - diz Tia Nilda, há 23 anos presidente da ala na verde e branco de Padre Miguel.
- Essa rivalidade é inventada - corrobora Jane Carla, pelo 18º ano à frente das senhoras que giram na Avenida para defender a azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira.
Amigas de longa data, elas são categóricas. Em vez de arranjar picuinhas, a hora é de se unir para enfrentar todas as ameaças que rondam a folia de 2018, como os barracões fechados pelo Ministério do Trabalho e o corte de verbas ditado pela prefeitura.
- Estamos preparando o carnaval sem ter certeza das coisas. São dúvidas sobre os ensaios técnicos, a Cidade do Samba. Não sabemos como vão ser os desfiles do ano que vem. É um bololô só. É com isso que devemos nos preocupar - alerta Tia Nilda. - Sinceramente, na minha escola nem tocamos mais no assunto da divisão do título.
Nas balbúrdias entre portelenses e independentes, o arranca-rabo mais recente foi na decisão de qual delas seria a faixa número 1 do CD de sambas-enredo de 2018, que sairá do forno mês que vem. Por sorteio, a Mocidade levou a melhor, para a grita de amantes da escola de Monarco e Tia Surica. Enquanto isso, tem torcedor da agremiação da Zona Oeste reclamando da foto do encarte do disco. Mas a troca de farpas entre os admiradores das duas já teve muitos outros episódios desde que a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) resolveu, em abril, que a Mocidade seria declarada campeã junto com a Portela, após um erro no julgamento da verde e branco.
Jane Carla e Tia Nilda, no entanto, lembram os próprios sambas para 2018 de suas escolas, que têm mensagens de conciliação. O portelense diz no refrão que "quem quiser pode chegar" e "vem irmanar a vida inteira". Já o independente traz no título o cumprimento indiano "Namastê", que significa "eu saúdo a você", além de ter em um de seus versos um clamor "pela tolerância entre os desiguais".
Sem falar, dizem elas, que ambas as agremiações - no passado conhecidas como escolas da roça, por ficarem distantes, no subúrbio carioca - compartilham a mesma alegria de terem vencido o carnaval depois de longos jejuns.
- É claro que, quando entramos na passarela, todos queremos ser campeões. Mas é uma competição saudável. Acaba o desfile, nos abraçamos. Queremos é paz. Quem quer briga está por fora - diz Jane Carla. - Que tudo isso acabe, realmente, em samba com feijoada.


