RIO — Chuvas fortes são comuns no verão carioca, mas o temporal que caiu sobre o Rio de Janeiro na madrugada desta quinta-feira pode ser considerado um fenômeno atípico. Em algumas regiões da cidade foram registrados em poucas horas níveis de precipitação superiores ao esperado para todo o mês de fevereiro. E a tempestade veio acompanhada de ventos intensos e muitos raios, que assustaram os moradores e provocaram danos à infraestrutura urbana.
De acordo com especialistas, o temporal foi provocado por uma zona de baixa pressão que se encontrava desde segunda-feira na costa do Sudeste, entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Essas áreas são caracterizadas pela subida do ar quente da superfície para camadas mais altas da atmosfera, carregando a umidade que forma as nuvens de chuva. O calor dos últimos dias favoreceu a evaporação, concentrando ainda mais umidade. Na noite desta quarta-feira, ventos transportaram este sistema do oceano para o continente, resultando nas fortes chuvas.
— Literalmente, foi uma tempestade perfeita — avalia Fabiana Weykamp, meteorologista do Climatempo. — Foi algo realmente excepcional. Para se ter uma ideia, a gente considera chuva forte com 25 milímetros acumulados em uma hora. Nesta tempestade, em Madureira foram 95 milímetros de chuva em 15 minutos.
Dados do Alerta Rio indicam que a Zona Oeste foi a mais castigada. Das cinco estações com maiores níveis de precipitação, quatro estão na região — Rio Centro, Cidade de Deus, Grota Funda e Recreio dos Bandeirantes. No Rio Centro, na Barra da Tijuca, o índice pluviométrico alcançou 133,8 milímetros entre 3h de quarta-feira e 3h desta madrugada, acima do esperado para todo o mês.
Segundo Fabio Rocha, meteorologista do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, a topografia da cidade favoreceu a formação de áreas de instabilidade sobre as zonas Oeste e Norte, “que acarretaram acumulados expressivos de chuva da ordem de 70 milímetros a 140 milímetros”. Rocha destaca ainda que fortes chuvas atingiram não apenas a capital, mas também o sul fluminense, na região da Costa Verde, com precipitações superiores a 100 milímetros.
Amerino Marinho, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia, destaca que a tempestade já era prevista, apenas a intensidade surpreendeu. Os órgãos de defesa civil foram alertados sob a presença de um sistema de baixa pressão no litoral desde segunda-feira, que ameaçava principalmente as cidades do litoral sul do estado.
— O Brasil é um país tropical, então fortes chuvas são normais. Elas se concentram no verão, mas podem acontecer em outras épocas do ano — comenta Marinho. — Tempestades com essa intensidade não são comuns, mas já aconteceram antes.
E a chuva veio acompanhada de ventos fortes. Em Jacarepaguá foram registradas rajadas de até 69,8 km/h; e de 73 km/h na Vila Militar. Em Santa Cruz, os ventos atingiram 92,6 km/h. Na escala Beaufort, com 12 níveis, essa força é classificada como “tempestade”, apenas dois níveis abaixo dos furacões. A tempestade elétrica também chamou a atenção dos cariocas. Entre 22h de quarta-feira e 2h da madrugada desta quinta, a região metropolitana do Rio de Janeiro registrou 4.089 raios, sendo que 3.071 atingiram o solo.
— Além dos alagamentos provocados pela chuva, a vida dos cariocas foi atrapalhada pelas quedas de árvores provocadas pelo vento e a falta de luz por causa das descargas elétricas — nota Fabiana.
Os meteorologistas alertam que ainda existe previsão de chuva para esta quinta-feira, mas não com a mesma intensidade. Para a próxima semana, existe a expectativa de chuvas fortes entre segunda e quarta-feira.
— Nós havíamos alertado que os modelos indicavam essa tempestade. Isso foi noticiado. Esse é o papel da meteorologia — diz a especialista do Climatempo. — Nunca vamos conseguir evitar que os temporais aconteçam, não vamos impedir os alagamentos e os deslizamentos, mas podemos usar a informação para evitar que pessoas percam a vida.



