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QUANDO O CRIME ORGANIZADO FESTEJA ANIVERSÁRIO


Por Elizabeth Menezes

11/02/2024 16h52 — em
Ombudsman



Toda a cidade ouviu o demorado foguetório no início da noite do sábado (10) e o motivo imediatamente estava em todos os veículos de comunicação: era o aniversário de 4 anos da organização criminosa CV (Comando Vermelho), que passou ocupar as áreas de tráfico antes comandadas pela extinta Família do Norte. Ao mesmo tempo, nos grupos de WhatsApp apareciam “convite” para a comemoração, informando não apenas o horário (19h), mas também enaltecendo a organização “que impera em 27 estados e em 8 países”, e prometendo “estremecer o Amazonas com muitos fogos”. A Polícia logo entrou em ação, prendeu suspeitos que estavam soltando fogos de artifício. Imagens do material encontrado foram divulgadas na imprensa. 

O secretário de Segurança, coronel Vinícius Almeida, ao falar sobre a operação para prender os fogueteiros, calculou que o número será maior do que em 2023, quando mais de 100 pessoas foram detidas. “Ano passado prendemos mais de 100 meliantes, e esse ano não vai ser diferente. Já conversei com o comandante da Polícia militar, com o delegado-geral e a nossa operação está pronta. No próximo vídeo, eu mostro pra vocês o recorde de prisões”, afirmou. O ato de soltar foguetes por um motivo igual a esse, é considerado apologia ao crime. Portanto, quem for flagrado em ação é passível de detenção. O episódio, como percebe, demonstra a desenvoltura do Comando Vermelho, nas supostas comunicações nas redes sociais. 

“Vamos mostrar a nossa força, a nossa lealdade a nossa camisa, e balançar o Amazonas”, diz parte um texto assinado por CV.RLAM, que se define como “grandiosa organização”. “Somos um exemplo leal e puro”, lê-se em outro trecho. Na verdade, as organizações criminosas adotam a prática de soltar fogos de artifício em diversas outras comemorações, inclusive para anunciar o assassinato de algum rival. A imprensa registra todos esses acontecimentos. Milícia, crime organizado, com citação de nome, sobrenome, história e imagem de chefões são mostrados na imprensa de todo o Brasil. Fugas, prisão de líderes do tráfico são discutidos em programa de televisão, com entrevistas de autoridades e analistas.  

Sobre o último foguetório do CV: parece racional pensar que era esperado acontecer, mas as forças de segurança não conseguiram evitar. Conforme se pode constatar pelo noticiário, a Polícia agiu de imediato após a “festa” começar, a tempo de flagrar pessoas com os fogos de artifício ainda nem utilizados. Ficam no ar algumas perguntas. De que forma esses tradicionais foguetes, que em tempos idos serviam para anunciar festas populares no interior, “comunicar” o nascimento de uma criança nos beiradões, são adquiridos por uma organização criminosa, em tão grande quantidade, sem ninguém perceber? Esses artefatos são explodidos não em florestas, mas diretamente nos bairros, em todas as zonas da cidade, onde vivem homens, mulheres e crianças. O que pensam os moradores dessas áreas? 

A semana está começando e o secretário de Segurança já prometeu que, em vídeo, mostrará à imprensa “o recorde de prisões” em consequência do ato realizado no sábado. A imprensa vai esperar. E publicar. Da mesma forma que não pode deixar de divulgar fatos criminosos. Exemplos: “Tronco de cadáver é encontrado boiando no rio próximo ao porto de Manaus”; “Polícia apreende 31 quilos de drogas avaliadas em R$ 400 mil no porto de Manaus”; “Mais de sete toneladas de drogas foram apreendidas neste início de 2024 no Amazonas” e “Parte de corpo humano é encontrado boiando no Roadway de Manaus”,      
  
Na internet, uma definição de crime organizado. “O crime organizado é uma rede transnacional de atividades ilícitas, como tráfico de drogas e de pessoas, jogos ilícitos e corrupção, que movimenta empreendimentos milionários. O crime organizado envolve atividade como jogos ilícitos, lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e corrupção”. 

É sobre isso que a imprensa do Amazonas, também, cuida.  Não é lisonjeiro, mas é a realidade visível, rotineira.  


Até quando?

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Elizabeth Menezes, jornalista formada pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas), repórter em jornais de Manaus, a exemplo de A Notícia, A Crítica e Amazonas em Tempo. Também trabalhou na assessoria de Comunicação da Assembleia Legislativa.

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