BUENOS AIRES - A tensão política e social parece não encontrar um teto na Venezuela. A disputa entre Nicolás Maduro e seus opositores em relação à polêmica convocação de uma Constituinte por parte do Palácio Miraflores alcançou seu auge ontem, com a determinação por parte da Mesa de Unidade Democrática (MUD) de não inscrever candidatos no Conselho Nacional Eleitoral e denunciar, dentro e fora do país, um processo que considera “ilegítimo e inconstitucional”. No exterior, a campanha anticonstituinte foi liderada pelo presidente da Assembleia Nacional (AN), Julio Borges, que foi recebido pelas mais altas autoridades do Parlamento Europeu, em Bruxelas, e pelo Papa Francisco, no Vaticano. Na visão de analistas ouvidos pelo GLOBO, a oposição está optando pelo único caminho possível, enquanto Maduro apela à sua aliança com o Judiciário e as Forças Armadas para permanecer no poder.
A crise venezuelana voltou a ser tratada ontem pelo conselho de ministros da Organização de Estados Americanos (OEA), onde a Venezuela é respaldada por uma minoria, diante de um grupo cada vez maior de países que considera inadmissível a repressão e violação dos direitos humanos e políticos no país.
Alheio às críticas e sustentado, essencialmente, pela fiel Força Armada Nacional Bolivariana (FANB), o chefe de Estado considera a realização da Constituinte quase uma questão de vida ou morte — iniciativa que até mesmo o ex-presidente espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, quase o único interlocutor estrangeiro que o Palácio Miraflores ouve atualmente, consideraria inadequada. Segundo versões que circularam em Caracas nos últimos dias, Zapatero, que está na capital venezuelana, e o governo cubano teriam tentado convencer Maduro sobre a necessidade de um recuo.
— Constituinte ou violência. Constituinte ou fascismo. O país escolheu o caminho correto, o da Constituinte — declarou o presidente.
Henrique Capriles, governador do estado de Miranda e um dos principais líderes opositores, por sua vez, considerou que seria “uma traição” se algum político se inscrevesse para a Constituinte.
Enquanto isso, nas ruas de Caracas e outras grandes cidades, as manifestações são permanentes e cada vez mais expressivas. A repressão, cada dia mais violenta.
— Expliquei ao Papa nossa situação. Pude transmitir que o problema da Venezuela é uma luta entre democracia e ditadura — contou Borges, após sua conversa com o Papa Francisco.
Horas antes, o líder da AN se reunira com o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, que expressou seu rechaço à Constituinte.
— Ele (Tajani) a considera uma continuação do golpe de Estado — disse Borges.
Tajani vai pedir que o Conselho e a Comissão Europeias estudem a adoção de sanções contra a Venezuela. Segundo o presidente do Parlamento venezuelano, as punições “seriam pessoais a funcionários que estejam envolvidos na repressão ou que tenham impedido direitos democráticos, como os magistrados (do Tribunal Supremo de Justiça)”.
— Estamos conseguindo que o mundo inteiro tenha uma posição universal — enfatizou Borges.
A turnê internacional do presidente da AN provocou a ira da ministra das Relações Exteriores, Delcy Rodríguez, que acusou Borges de ter “ultrapassado todos os limites imagináveis da imoralidade” por pedir sanções contra seu país.
O desfecho de uma crise que já deixou 69 mortos e levou a Venezuela a bater o recorde de 309 presos políticos (maior número desde 1958), de acordo com a ONG Foro Penal, é uma incógnita para analistas locais. Na opinião de Carlos Romero, professor da Universidade Central da Venezuela (UCV), um dos cenários possíveis é a realização da Constituinte sem a oposição, o que levaria o país a uma polarização ainda maior já que “passaríamos a ter uma Constituição não reconhecida pela maioria dos venezuelanos”.
— Hoje, 80% das pessoas querem uma mudança. Não existem mais condições para o diálogo porque a oposição não aceita outra possibilidade que não seja uma alteração de regime político — analisou.
Para ele, “a MUD não tem opção, não pode aceitar algo que até mesmo setores do chavismo rejeitam (a própria procuradora-geral da República se opôs publicamente) e que é claramente ilegal”.
— A sensação aqui é de que esta situação é insustentável. O país está parado, os alunos não têm aulas, o comércio está quebrado. Ninguém vê como Maduro conseguirá manter o poder desta maneira por muito mais tempo — disse o professor da UCV.
Até quando? É a pergunta que mais se ouve entre os venezuelanos.
— É uma boa pergunta e ninguém sabe a resposta — comentou Manuel Puyana, diretor do jornal “Tal Cual”.
Puyana conhece como poucos a política do país, mas não se atreve a antecipar um desfecho:
— O que sabemos é que a oposição não sairá das ruas sem um calendário eleitoral que não inclua a Constituinte e sim uma eleição geral.

