CABUL - O ataque com um caminhão-bomba no bairro diplomático de Cabul — que deixou ao menos 90 mortos e mais de 460 feridos — acontece em um contexto de grande incerteza para o Afeganistão. No começo da semana, o diretor do Pentágono, Jim Mattis, declarou que 2017 será um ano difícil para o Exército afegão e soldados estrangeiros enviados ao país, e agora o presidente Donald Trump estuda um possível envio de milhares de militares para enfrentar a situação. O governo americano, envolvido no conflito mais longo de sua História, mantém atualmente 8.400 soldados no Afeganistão, ao lado de 5 mil militares de países aliados, com a missão primordial de treinar e assessorar as Forças Armadas afegãs.
A agência de Inteligência do Afeganistão acusou a rede extremista Haqqani, aliada dos talibãs, de ter realizado o ataque. Mas os talibãs, que anunciaram no fim de abril o início da “Ofensiva da Primavera”, afirmaram no Twitter que não tiveram envolvimento e condenaram o atentado “com veemência” — o grupo evita reivindicar ataques com grande quantidade de vítimas civis. Já a organização extremista Estado Islâmico (EI), responsável por vários atentados violentos em Cabul nos últimos meses, não se pronunciou, mas também é suspeita.
O ataque, um dos mais violentos contra a zona ultraprotegida de embaixadas estrangeiras, evidencia a força dos extremistas, mesmo em regiões mais seguras da capital. Moradores de Cabul protestaram no local, pedindo a renúncia dos líderes do governo da Unidade Nacional — o presidente Ashraf Ghani e o premier Abdullah Abdullah. A Anistia Internacional condenou o “horrível ato de violência deliberado, que demonstra que o conflito no Afeganistão não diminui, e sim aumenta perigosamente, e deveria alarmar a comunidade internacional”.
A Zona Verde é protegida por muros de três metros e fortemente vigiada por soldados em dezenas de pontos de controle. Ali estão a Embaixada da Alemanha, o Ministério de Exterior e o palácio presidencial — assim como representações diplomáticas de Reino Unido, Canadá, China, Turquia e Irã. Na embaixada alemã, a mais danificada, dezenas de janelas foram destruídas, e o porta-voz da polícia em Cabul sugeriu que o local poderia ser o alvo dos extremistas.
Cerca de mil soldados alemães estão no Afeganistão como parte da força da Otan, e o país investiu bilhões em militares e ajuda para estabilizar o país. O ministro alemão das Relações Exteriores, Sigmar Gabriel, disse que o atentado não muda a “determinação de apoiar o governo em seus esforços para estabilizar o Afeganistão”.
Escondido em um caminhão, o kamikaze detonou cerca de 1.500 kg de explosivos por volta das 8h25m (horário local), ao ser parado em um ponto de controle. A explosão foi tão violenta que deixou uma cratera no local, abalou grande parte da cidade, quebrando portas e janelas, e gerando pânico entre a população. A maioria das vítimas é de civis afegãos, que trabalham em locais próximos. Também morreram 11 guardas afegãos da embaixada dos EUA, um da embaixada da Alemanha e o motorista Mohammed Nazir, da BBC, assim como um jornalista do canal local Tolo. Funcionários da embaixada alemã e quatro jornalistas da BBC ficaram feridos.
Enquanto os feridos iam chegando em grande número aos hospitais, alguns em estado crítico, o Ministério de Interior emitiu um chamado urgente pedindo doação de sangue.
— Meus filhos estão gravemente feridos. Vi que eles sangravam, estão morrendo — disse uma mulher, aos prantos.
O Papa Francisco denunciou o ataque como “abjeto”, e a Casa Branca o classificou como “atroz”. As autoridades afegãs condenaram o atentado, no quinto dia do Ramadã, o mês sagrado muçulmano. Para o presidente, foi um crime de guerra. Ele convocou uma reunião de gabinete de emergência, para aumentar os esforços para garantir a segurança de Cabul.

