Segundo o Palácio do Planalto, Lula disse a AMLO, como o mexicano é conhecido, que o Brasil vai monitorar o tratamento do episódio por meio da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). A Organização dos Estados Americanos (OEA) também criticou o governo do Equador.
A violação da embaixada não tem precedentes na região e causou ainda mais tensionamento político, com forte reação de governantes de esquerda e de direita.
O Itamaraty já havia comunicado, por meio de nota, que o governo brasileiro condenava, nos mais firmes termos, a ação empreendida por forças policiais equatorianas. "A medida levada a cabo pelo governo equatoriano constitui grave precedente, cabendo ser objeto de enérgico repúdio, qualquer que seja a justificativa para sua realização", disse o Ministério das Relações Exteriores.
AMLO anunciou a Lula que vai mover um processo contra o Equador na Corte Internacional de Justiça (CIJ). O governo de López Obrador rompeu relações diplomáticas com o Equador, de Daniel Noboa, de direita. A Nicarágua, do ditador Daniel Ortega, somou-se aos mexicanos e decidiu por romper laços, que já estavam deteriorados.
Na noite de sexta-feira, dia 5, forças de segurança equatorianas invadiram a embaixada mexicana em Quito para prender o ex-vice-presidente equatoriano Jorge Glas. Ele buscava asilo político e estava abrigado na embaixada desde 17 de dezembro, depois de ter sido condenado à prisão, entre outros, por crime de peculato, em casos de corrupção.
Na esteira de ataques de facções criminosas que provocaram mobilização internacional, o governo de Daniel Noboa alegou que vive um "conflito armado" interno no país e que o "abuso de imunidades e privilégios" por missões diplomáticas poderia "agravar a situação".
O governo de Noboa tem tentado buscar sair de um isolamento e justificar o ato, considerado amplamente como uma violação clara à Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. O tratado prevê a "inviolabilidade" das embaixadas e uma série de imunidades a autoridades diplomáticas estrangeiras. Os agentes de segurança de um país onde as embaixadas estão sediadas somente podem entrar em para cumprir ordens judiciais com aval do chefe da missão, o que não ocorreu.
A diplomacia equatoriana disse ter pedido ao México aval para a Polícia Nacional prender Glas na embaixada, o que teria sido negado. Segundo o governo Noboa, o México estaria interferindo em assuntos internos do país e afetando instituições democráticas equatorianas, ao impedir o cumprimento de ordens judiciais de captura. Quito argumentou ainda que havia risco de fuga e que Glas não pode ser considerado perseguido político.
A chancelaria equatoriana recorrera recentemente a essas mesmas garantias para condenar o ataque aéreo promovido por Israel contra um complexo diplomático e consular do Irã, em Damasco, na Síria, a fim de matar um general da Guarda Revolucionária iraniana. O país também abrigou o fundador do Wikileaks, Julian Assange, por sete anos na embaixada equatoriana em Londres. O ex-presidente Lenín Moreno revogou o asilo a Assange em 2019, e ele foi preso.
O Planalto disse que Obrador agradeceu o gesto de Lula. Eles voltaram a falar sobre a possibilidade de o petista fazer uma visita a AMLO, na Cidade do México, que poderia ter ocorrido no ano passado, mas foi adiada. Lula disse que deseja visitar o país neste ano, antes do fim do mandato de López Obrador.
Portugal e Vaticano
Também nesta terça-feira, Lula conversou pela primeira vez com o novo primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, político da direita moderada, vencedor das eleições de março. Segundo o Planalto, Lula cumprimentou Montenegro pela vitória que tirou de cena um governo de esquerda alinhado ao petista.
Lula disse que deseja encontrar o novo premiê português em breve e falou sobre a presença da comunidade brasileira em Portugal - em expansão, o grupo imigrante passou dos 400 mil registros legalizados, mas são frequentes os relatos de casos de xenofobia.
A Presidência disse que Montenegro "falou de seu empenho em trabalhar pelo estreitamento das relações entre Brasil e Portugal" e agradeceu o convite para participar do G-20.
Na véspera, o presidente recebeu no Planalto o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano. O representante do papa Francisco manifestou preocupação com a situação dos indígenas no País, especialmente os Yanomami. O petista falou sobre ações contra o garimpo e seu plano de demarcação de novas terras para os indígenas. Segundo o governo, Lula ressaltou o papel do papa ao vocalizar sua oposição à guerra e a necessidade de empenhar esforços para redução de desigualdades e garantir a liberdade religiosa.

