Eleição em Honduras tem mulher de ex-presidente ligada ao chavismo como favorita

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

27/11/2021 15h35 — em Mundo

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Depois de uma sequência de anos conturbados, marcados por um golpe de Estado, uma eleição com acusações de fraude e intensos protestos de rua, os hondurenhos vão às urnas neste domingo (28) para apontar o sucessor de Juan Orlando Hernández. O direitista se despede de seu segundo mandato em meio a uma crise humanitária, de segurança pública, econômica e sanitária.

Embora as pesquisas no país não tenham histórico de confiabilidade e mostrem grandes diferenças nos números, a depender do instituto, os principais levantamentos indicam a liderança da esquerdista Xiomara Castro de Zelaya (Libertad y Refundación) sobre o governista Nasry Asfura (Partido Nacional). Segundo dados do Cespad (Centro de Estudos para a Democracia), Xiomara teria 38% das intenções de voto, contra 21% de Asfura. O empresário Yani Rosenthal vem em terceiro com distantes 3%.

O pleito vai eleger, além de quem comandará o país até janeiro de 2026 --em Honduras, não há segundo turno--, 128 deputados para o Congresso e 298 prefeitos.

Xiomara é casada com o ex-presidente Manuel Zelaya (2006-2009), deposto por um golpe de Estado --antes de sair do país, em janeiro de 2010, ele permaneceu quatro meses na embaixada do Brasil, à época governado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sua candidatura desafia o bipartidarismo que vem dominando a política hondurenha, tomada pelas principais legendas do país, Liberal e Nacional.

Ela passou a ter projeção nacional ao defender publicamente o marido afastado do poder e adotou como bandeira de campanha planos de gastos sociais parecidos aos implementados por ele para o combate à pobreza, além da luta anticorrupção.

Zelaya retornou ao país em 2011, quando fundou o Libertad y Refundación, e vem participando ativamente da campanha da mulher. O casal tem vínculos com o ditador venezuelano Nicolás Maduro, de quem toma inspiração para os projetos contra a desigualdade --o chavismo apoiou o hondurenho quando ele foi deposto e fez campanha para a restituição de seu poder. Também está ligado a sindicatos e movimentos estudantis e conta com grande popularidade em regiões rurais.

Xiomara afirma que, caso eleita, vai promover uma aproximação comercial com a China, propor uma nova Assembleia Constituinte (algo que o marido também defendeu), implantar uma reforma judicial e sugerir a criação de uma comissão para apurar casos de corrupção no país, com o apoio das Nações Unidas.

Asfura, por sua vez, tem o desafio de tentar se eleger sendo herdeiro político de um presidente desgastado por seguidas crises e uma acusação criminal. Hernández é acusado de narcotráfico pelos americanos e tem o irmão, Juan Antonio "Tony" Hernández, preso nos Estados Unidos desde 2019.

O direitista é hoje prefeito de Tegucigalpa, capital do país, e tem apoio de parte do empresariado, dos militares e dos evangélicos. Também ele, porém, responde a um processo na Justiça, acusado de desviar verbas públicas que pertenciam à cidade.

Rosenthal, com poucas chances, adota uma política pró-mercado e liberal também nos costumes, defendendo avanços na legislação de direitos civis, como a legalização do aborto, do casamento homossexual e das drogas.

Galeria Crianças na caravana de imigrantes centro-americanos Meninos e adolescentes desacompanhados estão Honduras é um dos países mais pobres das Américas, com 59% da população abaixo da linha da pobreza e 36,2% de indigentes. O país integra, ainda, o chamado Triângulo do Norte, ao lado de Guatemala e El Salvador, onde a atuação das "maras" (facções criminosas) é intensa. O país tem uma taxa de homicídio de 38 por 100 mil habitantes --no Brasil, o índice é de 23,6 por 100 mil.

Por causa do medo da violência, da extorsão promovida pelas "maras" e de ter seus filhos recrutados pelo crime organizado, cidadãos do país vêm migrando em massa nos últimos anos, muitos deles buscando entrar ilegalmente nos EUA.

As crises humanitária, de segurança e econômica, a tensão política e furacões devastadores aumentaram as filas em caravanas de migração. Segundo as Nações Unidas, entre 2009 e 2017, a busca de hondurenhos por asilo nos EUA passou de 850 a 41.468. Só entre outubro de 2020 e setembro de 2021, 43 mil foram detidos na fronteira americana.

A Covid agravou a crise humanitária. Com o número oficial de pouco mais de 10 mil mortos desde o início da pandemia, o país caminha de modo lento na vacinação, com 39% da população com as duas doses.

Em 2017, o opositor Salvador Nasralla, famoso apresentador de TV e então candidato à Presidência, saiu à frente na contagem dos votos. Depois de alguns dias de apuração, porém, o processo foi interrompido, por supostas falhas técnicas. Quando o processo foi retomado, Hernández aparecia com 23 pontos de vantagem.

A oposição e seus apoiadores saíram às ruas em protesto, alegando fraude. A OEA (Organização dos Estados Americanos) recomendou a repetição da eleição, mas o pedido foi ignorado. Houve brutal repressão ao movimento, com um saldo de 23 mortos. Nasralla anunciou apoio a Ximara no pleito deste ano.

As intenções de JOH, como é conhecido o presidente, depois do pleito não estão claras. Se Asfura vencer, ele poderia tentar evitar uma extradição aos EUA. Como as sondagens indicam que esse caminho pode não se concretizar, o mandatário tem articulado planos alternativos.

Recentemente, buscou se reaproximar de Daniel Ortega, ditador da Nicarágua, até então seu rival político. A mídia local avalia que essa pode ser uma estratégia para ele pedir asilo no país e, assim, evitar ter de responder por crimes no país onde tentam entrar, ilegalmente, milhares de hondurenhos.


O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

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