NOVA YORK - A crescente troca de insultos entre Pyongyang e Washington chegou a seu ponto mais alto ontem, com a ameaça da Coreia do Norte de derrubar aviões americanos, mesmo fora de seu espaço aéreo, após o que considerou ser “uma declaração de guerra” por parte do presidente americano, Donald Trump.
— O mundo inteiro deverá se lembrar que foram os EUA que tiveram a iniciativa de declarar guerra a nosso país — afirmou o chanceler norte-coreano, Ri Yong-ho, a repórteres na saída da sede das Nações Unidas, em Nova York. — E uma vez que os EUA declararam guerra a nosso país, temos todo o direito de adotar medidas de proteção, incluindo o direito de derrubar bombardeiros americanos mesmo quando eles não estiverem em nosso espaço aéreo.
A polêmica, o novo capítulo numa longa sucessão de trocas de ameaças e insultos entre os dois governos, começou na noite de domingo. Na ocasião, Trump comentou o discurso de Ri na ONU, afirmando que, se o chanceler refletisse os pensamentos do “pequeno homem-foguete” — apelido dado pelo presidente americano ao ditador norte-coreano, Kim Jong-un, após os últimos testes de mísseis balísticos de Pyongyang — o regime “não duraria muito tempo”. Mantendo o tom desafiador, Ri afirmou, na ONU, que a questão sobre quem não durará muito será respondida em breve pela Coreia do Norte.
Horas após a declaração do chanceler, o governo americano rebateu as declarações de Ri num coletiva na qual a secretária de Imprensa da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, garantiu que o país não havia declarado guerra à Coreia do Norte.
— Francamente, esta sugestão é absurda — afirmou a porta-voz.
Embora a Coreia do Norte não derrube aviões americanos desde 1969, e tenha uma Força Aérea obsoleta e de poderio limitado, analistas ouvidos pelo diário “New York Times” acreditam que as ameaças do chanceler devem ser encaradas como mais que meras demonstrações verbais de força.
— Creio que estamos perigosamente próximos de um conflito com a Coreia do Norte — afirmou Jae H. Ku, diretor do Instituto Coreano-Americano na Universidade Johns Hopkins, em Washington. — Isso era algo que eu temia. Quando se segue por esse caminho, a escalada de tensões pode levar a alguns disparos acidentais e outros não tão acidentais assim.
Embora diversos presidentes americanos tenham insistido em manter todas as opções sobre a mesa ao buscarem uma solução para a questão nuclear norte-coreana, Trump e integrantes de seu governo têm discutido mais publicamente a possibilidade de ações militares. Aí se inclui o que o conselheiro de Segurança Nacional, HR McMaster, chamou de “guerra preventiva” — um termo usado para descrever um conflito destinado a evitar que a Coreia do Norte mantenha sua capacidade de ameaçar os EUA com armas nucleares.
No entanto, a possibilidade de retaliações imediatas contra Seul — localizada a algumas dezenas de quilômetros da fronteira que separa as duas Coreias, e dentro do alcance de milhares de armas de artilharia convencional de Pyongyang — pode inibir ações mais ousadas do governo americano na Península Coreana. Após as declarações do chanceler norte-coreano, o governo sul-coreano pediu a Washington que evite uma escalada das tensões.
— É muito provável que a Coreia do Norte faça outras provocações, e é imprescindível que nós, Coreia do Sul e EUA, administremos a situação para evitar qualquer tipo de choque militar acidental que possa fugir do controle — ponderou o chanceler sul-coreano, Kang Kyung-wha.
O discurso de Ri na ONU começou pouco depois de o Pentágono anunciar que aviões militares dos Estados Unidos, escoltados por jatos de combate, sobrevoaram o espaço aéreo internacional sobre as águas a leste da Coreia do Norte, numa demonstração de força.
Mais cedo, também no sábado, a China identificou um tremor de magnitude 3,4 na Coreia do Norte, o que levantou suspeitas iniciais de um possível novo teste nuclear do regime de Kim Jong-un. De acordo com Centro Nacional de Terremotos da China (Cenc), o epicentro do sismo foi praticamente o mesmo do tremor de 3 de setembro, provocado pelo sexto teste nuclear norte-coreano — o mais poderoso até agora.
Apesar das suspeitas, a Coreia do Sul e, posteriormente a China, afirmaram que o tremor pode ser sido originado por causas naturais. O serviço meteorológico do país classificou o abalo com magnitude de 3 graus. Após o tremor, a Organização do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares anunciou estar investigando as causas da explosão.
Todos os testes nucleares realizados anteriormente pela Coreia do Norte foram classificados com magnitude superior a 4,3 graus. No ensaio de 3 de setembro, o abalo sísmico alcançou magnitude de 6,3 graus. Na ocasião, Pyongyang afirmou que estava testando uma bomba de hidrogênio.

