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Possíveis aliados em novo governo de Merkel se criticam

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BERLIM - Berlim Após os resultados das eleições de domingo, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, sabe que terá que enfrentar divisões internas, o que pode prolongar ainda mais as difíceis negociações para formar um novo governo. Mas não é só Merkel que terá obstáculos pela frente: os ultradireitistas do Alternativa para a Alemanha (AfD) — pela primeira vez no Parlamento — já se mostraram divididos ontem, numa prévia de como serão os debates no Parlamento, num país acostumado ao consenso.

A insatisfação do eleitor alemão com o atual governo, encabeçado pela União Democrata Cristã (CDU), de Merkel, e o partido bávaro União Social Cristã (CSU), ficou clara: juntas, as duas legendas perderam 4,6 milhões de eleitores. E depois que seu maior adversário, Martin Schulz, do Partido Social Democrata (SPD) — com quem Merkel governou como sócio minoritário nos últimos quatro anos — recusou-se a participar de um novo mandato, a chanceler tem como única opção a tentativa de formar a chamada “coalizão Jamaica”, inédita em nível federal e assim batizada por causa das cores dos três partidos que a representam: o preto da CDU/CSU, o amarelo dos liberais do Democrata Livre (FDP), e os Verdes.

As duas legendas cortejadas por Merkel, no entanto, têm mostrado resistência, apesar do comunicado oficial de que, como democratas, estão dispostos ao diálogo. Christian Lindner, presidente dos liberais — que conseguiu fazer o FDP voltar ao Parlamento, de onde fora varrido em 2013 após quatro anos de coalizão com Merkel, em seu segundo mandato — anunciou ontem que ninguém poderia forçá-lo a aceitar participar de um governo com os Verdes.

— Só mudar as cores não adianta — advertiu, em indireta à chanceler, que cumpriu o seu primeiro mandato com o SPD, o segundo com o FDP, e o terceiro, de novo com o SPD.

Se não conseguir colocar sua assinatura no programa do próximo governo, ameaçou Lindner, o FDP vai fazer um “trabalho sério” do lado da oposição. Um dos principais pontos de atritos com os Verdes é o tratamento que o partido dá ao motor a combustível. Enquanto os Verdes querem tornar elétricos os automóveis do país, o FDP prometeu aos seus eleitores justamente o contrário: descartar a proibição de carros movidos a diesel e a gasolina.

Por sua vez, a deputada federal verde Canan Bayram também já afirmou ontem ser contra a coalizão, já que “não vê nada em comum com o FDP”.

— Não podemos prometer algo na campanha eleitoral e, depois do pleito, fazer o oposto — ressaltou.

E antes mesmo de iniciar a negociação com os partidos, Merkel enfrenta hoje a prestação de contas com o seu maior aliado e também crítico: Horst Seehofer, presidente da CSU, partido-irmão da CDU, que existe apenas na Baviera. Os dois renegociam todos os anos mas, desta vez, Seehofer — que sempre foi contra a política para refugiados defendida pela chanceler — irá exigir de Merkel uma posição clara que limite o número de migrantes no país em, no máximo, 200 mil por ano.

Ele também deverá criticá-la como corresponsável pelo sucesso da AfD nas eleições — o que a própria chanceler já admitiu, apesar de reafirmar ontem que continuava vendo como certa a decisão de abrir as fronteiras para os refugiados em 2015.

Entretanto, um dia depois do êxito fulminante, quando conseguiu em apenas quatro anos de fundação ingressar no Parlamento, o Alternativa para a Alemanha também está dividido. Em plena entrevista coletiva com os candidatos Alexander Gauland e Alice Weidel, a então colíder do AfD, Frauke Petry — eleita deputada por voto direto — anunciou que não se sentará ao lado de seus correligionários no Parlamento alemão e ficará como independente.

Petry ainda criticou os escorregões neonazistas dos colegas, lembrando que, sem eles, o resultado teria sido ainda maior, já que, segundo ela, os adversários “eram fracos”. A deputada — que subiu à cúpula da legenda em 2015, depois de derrubar o fundador e presidente Bernd Lucke — é contra as tendências de extrema-direita dentro do partido porque acredita que, para ser capaz de assumir o governo alemão daqui a quatro anos, será preciso atrair votos também de eleitores do centro. As declarações do seu maior rival interno, Alexander Gauland, que no domingo disse que o AfD ia “caçar Merkel” e ainda elogiou as Forças Armadas alemãs durante as duas Guerras Mundiais, também foram alvo de duras críticas.

— Petry estava isolada no grupo de Gauland, mas tem adeptos que podem acompanhá-la — afirmou ao GLOBO o cientista político Oskar Niedermeyer, de Berlim, lembrando que a agressividade mútua é típica dos partidos de extrema-direita. — Os seus próprios membros vão cuidar, eles mesmos, de liquidar o AfD através de rivalidades e brigas internas.

Para reforçar seu descontentamento, Petry levantou-se e deixou a mesa dos entrevistados, que ficaram perplexos. Trata-se do primeiro golpe no novo partido, podendo fazer emagrecer a bancada parlamentar. Após a saída da deputada, os integrantes do AfD não perceberam que os microfones ainda estavam ligados e começaram a zombar da atitude da correligionária, parodiando uma canção infantil tradicional.

— No começo éramos quatro, agora somos três. Mas não vamos dizer “negrinhos pequenos” e sim com “pigmentação máxima” senão vão nos chamar de racistas — teria dito Jörg Meuthen, vice-presidente do AfD, que também estava na entrevista, segundo a TV NTV.

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