A professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Maria de Nazaré de Souza Ribeiro, se tornou doutora também pela UEA no último dia 16 de junho, quando fez a defesa da primeira tese de doutorado do Programa de Doutorado Interinstitucional, conhecido como Dinter, na Universidade de São Paulo. Muito elogiada por todos os membros da banca examinadora e com o tema “De Leprosário a bairro: reprodução social em espaços de segregação na Colônia Antônio Aleixo (Manaus-AM)”, a tese foi aprovada e recomendada para publicação em forma de livro por unanimidade pelos componentes da banca.
“Ao apresentar o primeiro trabalho do DINTER com uma banca altamente qualificada para avaliá-lo, era de se esperar que as exigências também seriam maiores, assim também como a possibilidade de muitas críticas. No entanto, os elogios superaram todas as minhas expectativas, relatou a autora que é professora de Enfermagem da Escola Superior de Ciências da Saúde – ESA/UEA.
A autora agradeceu ainda ao apoio que lhe foi dado pela instituição durante o período de 1 ano e 11 meses que cursou o Dinter UEA/USP. “Quero agradecer enormemente à Direção da ESA/UEA e Coordenação de Enfermagem pelo apoio incondicional, e à FAPEAM pela liberação de 9 meses de bolsa”, finalizou.
SOBRE A TESE
De acordo com a autora da tese, a idéia surgiu da própria vontade dos ex-internos do leprosário de terem sua história de segregação escrita, para que, no futuro, outros fatos semelhantes não voltem a acontecer. Os primeiros contatos com àquelas pessoas foi no ano 2000, quando o Pe. Hudson Ribeiro, recém ordenado, convidou a professora para desenvolver um trabalho na Pastoral da saúde com a finalidade de capacitar líderes comunitários para acompanhar doentes em domicílio e orientar quanto a importância da promoção de saúde. “A vivência com os comunitários, me fez ver o quanto há ainda de preconceito e segregação, apesar da desativação do leprosário em primeiro de janeiro de 1979”, explicou a autora.
O trabalho formatado em três partes começa relatando o viver com hanseníase e o viver segregado no leprosário de 1942-1978, destacando as formas de viver e trabalhar nesse período, contando ainda como a hanseníase se tornou endêmica no Amazonas com o advento da exploração da borracha no século XIX, em que todos os pontos relacionados às formas de viver e trabalhar dos doentes segregados partiram dos relatos da história de vida dos ex-internos selecionados para participarem da pesquisa.
O segundo capítulo trata da desativação do leprosário e a formação do Bairro Colônia Antônio Aleixo, de 1979-2010, e o contexto que envolveu essa desativação em meio a grandes desavenças internas e externas. O estudo relata a metamorfose ocorrida no espaço do antigo leprosário e a formação do novo bairro e a presença de novas redes sociais, dando destaque ao MORHAN (Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase) e à Igreja Católica, instituições que ajudaram a construir uma nova história.
No terceiro capítulo, a autora apresenta as formas de reprodução social dos moradores do bairro Colônia Antonio Aleixo no século XXI. Neste capítulo a autora apresenta ainda os dados quantitativos e suas respectivas análises, divididos nos seguintes tópicos: perfil demográfico e socioeconômico.
A autora relatou que os resultados mostram a discriminação e as práticas excludentes que os portadores de hanseníase puderam experimentar, praticada pela sociedade, família, governo, equipe de saúde e pelos administradores da Colônia. “As redes sociais presentes na Colônia mostraram-se muito importantes para o enfrentamento da doença, seja pela sua função objetiva (ajuda prática), seja pela sua função subjetiva (apoio e afeto)”, destacou a autora que analisou ainda a forma de viver dos doentes segregados e percebeu como o tratamento negligenciado os levou a conseqüências físicas e sociais graves.
PARECER DOS MEMBROS DA BANCA EXAMINADORA
“O trabalho tem muita qualidade técnica e científica” (Raul Borges)
“O trabalho é altamente relevante e mostra como é possível aproximar pesquisas qualitativas e quantitativas. O trabalho foi muito bem delimitado e escrito em um formato que prende a atenção do leitor fazendo com que a leitura flua naturalmente” (Helena Ribeiro)
“Sinto-me honrada em ter sido convidada para esta banca, para avaliar este trabalho que retrata uma importante parte da história da saúde pública do estado do Amazonas” (Cássia Baldini)
“Este trabalho ajuda a desfazer o preconceito que muitos pesquisadores têm a respeito do Norte do Brasil. Ele prova que no Norte existem excelentes intelectuais capazes de produzir pesquisas de alta qualidade” (Júlio Suzuki)
“A banca aprova o trabalho por unanimidade e recomenda sua publicação em forma de livro” – resumo da ata de defesa.

