Manaus/AM - Um terço dos filhos de mães infectadas durante a gravidez apresentaram, nos primeiros anos de vida, anormalidades consistentes com a Síndrome da Zika Congênita (SZC) nas quatro regiões do país, incluindo a Norte, que foram mais afetadas pela epidemia nos anos de 2015 a 2017, com infecção pré-natal confirmada em laboratório por testes genéticos e avaliação dos potenciais efeitos adversos em nível individual.
Esse é o resultado de um estudo de colaboração nacional de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e de outras 25 instituições do Brasil agrupados no Consórcio Brasileiro de Coortes relacionadas ao vírus zika (ZBC Consortium).
Em Manaus, de 800 mulheres que se declararam grávidas e apresentaram doença exantemática (doença infecciosa aguda, de natureza viral), notificadas como casos suspeitos de vírus zika, foram examinadas e dessas, 320 foram confirmadas com a doença. Os demais 760 dos casos notificados foram acompanhados até o final da gestação.
“Atualmente, estamos fazendo a busca ativa das crianças expostas para analisar sua situação no quinto ano de vida”, disse a pesquisadora Flor Ernestina Martinez-Espinosa, da Fiocruz Amazônia, que é co-autora sênior do estudo (ao lado de Patrícia Brasil, do INI/Fiocruz) e coordenou uma das coortes de gestantes expostas ao vírus zika.
As manifestações da síndrome envolvem deficiências neurológicas funcionais, anormalidades de neuroimagem, alterações auditivas e visuais e microcefalia. Tais disfunções aparecem mais frequentemente de forma isolada do que em combinação, com menos de 0,1% das crianças expostas apresentando duas delas simultaneamente.
Os resultados foram encontrados a partir da análise combinada de dados de 13 estudos que investigam os resultados pediátricos em gestações afetadas pelo vírus zika durante a epidemia de 2015-2017 no Brasil.
O projeto em Manaus ocorreu a partir de uma parceria entre a Fiocruz e a Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), instituição de referência para doenças infecciosas e parasitárias no estado do Amazonas que sedia dois laboratórios da Fiocruz Amazônia.
A realização de estudos adicionais com tempo de acompanhamento mais longo é apontada pela equipe de pesquisadores como o futuro da pesquisa publicada nesta segunda.
A avaliação do risco de hospitalização e morte para crianças com microcefalia à medida que envelhecem e, naquelas sem microcefalia, averiguar os riscos de outras complicações, ligadas ao desenvolvimento comportamental ou neuropsicomotor, são os possíveis caminhos para a continuidade da investigação.
O estudo aponta também para a importância do diagnóstico e intervenção precoces de eventuais manifestações congênitas atribuídas ao vírus zika.

