Início Manaus Atentado contra viatura mostra empoderamento das organizações criminosas no Amazonas
Manaus

Atentado contra viatura mostra empoderamento das organizações criminosas no Amazonas

Atentado contra viatura mostra empoderamento das organizações criminosas no Amazonas
Atentado contra viatura mostra empoderamento das organizações criminosas no Amazonas

Ao analisar o ato, dois sociólogos e professores da Ufam cobram respostas das investigações sobre as reais causas do atentado

O atentado ocorrido na última quinta-feira (6), quando uma viatura do 1º Distrito Policial foi fuzilada por bandidos que visavam matar os três prisioneiros conduzidos nela, nas proximidades do Fórum Henoc Reis, mostra o empoderamento das organizações criminosas no Estado. 

Viatura policial fuzilada por bandidos / Foto: Portal do Holanda

A afirmação é do sociólogo Luiz Antônio Souza, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ao citar especulações de que o ato teria sido não só acerto de contas entre as organizações criminosas, mas também para evitar a chamada caguetagem. No atentado, três presos e dois policiais civis foram baleados e um dos detentos morreu.

Na verdade, segundo ele, para analisar esse acontecimento, é preciso lembrar os acordos feitos pelos que estão no poder com o crime organizado, o que gera preocupação. “Olhando para o Brasil e o Amazonas em particular, tem situações como a de um candidato a governador que fez acordo com o crime, coisa que não pode acontecer porque o crime não tem a ética da responsabilidade dos agentes públicos”, argumento o sociólogo.

Para ele, diante do modelo de segurança pública do país, que privilegia o aprisionamento, sendo o terceiro no mundo nesse item, fazendo com que o moleque preso sob argumento do tráfico de drogas torne-se lá dentro da prisão um soldadinho das forças paramilitares do crime, não há o que esperar de mudanças. 

“Em 10 anos, dobramos o número de presos e o crime não recuou um centímetro, porque os moleques vão para o sistema prisional e lá fecham acordos com as forças do crime organizado porque não têm dinheiro para pagar as taxas de sobrevivência, ou seja, estamos produzindo moleques que vão alimentar o crime organizado”, observa Luiz Antônio.

CHACINAS

Um dado interessante destacado pelo professor é a eficiência mostrada pela polícia que, quando quer, dá resposta à sociedade, prendendo rapidamente alguns dos envolvidos no atentado. “Cabe perguntar porque essa mesma polícia não respondeu às três chacinas, a do rio Abacaxis, do baixo Amazonas, de Tabatinga e a do Crespo, quase três anos depois?

Para Luiz Antônio, o atentado vai produzir uma série de espetáculos da força policial, com ruas lotadas de viaturas, com alertas ligados e mais de meia dúzia presos respondendo à sociedade. 

“Mas o que fica para a população é a preocupação ao ver que nem a polícia está protegida das organizações criminosas, que dirá o povo de Manaus” , finaliza.

RESPOSTAS

Outro sociólogo e professor da Ufam, Marcelo Seráfico, afirma que esse é mais um capítulo do gravíssimo problema que afeta, há tempos, a cidade de Manaus, o problema da violência. 

Mas, segundo ele, é preciso saber qual a origem dessa violência e como ela avança. “Como, a despeito de investimentos feitos em equipamentos (carros, coletes à prova de bala, armamentos, sistemas de monitoramento etc.), ela não retrocede?”, questiona ele, para responder que, provavelmente, o problema está para muito além do conflito entre polícia e ladrão. 

“Essa violência envolve questões relativas ao precário acesso à renda, à educação, à saúde, à habitação, ao saneamento que afetam a maioria dos cidadãos do Estado. Problemas esses agravados pela crise econômica experimentada pelo país”, observa o professor.

Para Seráfico, nesse sentido e apenas nele, talvez se possa dizer que haja um recado, ainda que não intencional, no ato criminoso da quinta-feira: armar indivíduos, mesmo que das polícias, não intimida quem está motivado por causas que precisam ser esclarecidas, denunciadas e avaliadas pela Justiça.

O sociólogo destaca a necessidade de que a investigação policial responda qual a real motivação do atentado, para que se possa entender a origem de tamanha violência, à luz do dia, às portas da Justiça e vitimando, também, policiais. 

“Os cidadãos já vivem apreensivos por uma série de inseguranças, como as relativas à renda, à saúde, à possibilidade de planejar algo. A insegurança decorrente da violência está intimamente associada a essas, mas apresenta um grau de angústia maior, pois pode representar não só a perda de bens adquiridos, mas da  própria vida”, argumenta ele, lembrando que esse resultado pode vir tanto por ação da polícia quanto dos à margem da lei.

Além disso, finaliza Seráfico, a angústia da população torna-se maior ao constatar a incapacidade ou desinteresse dos governantes e dos grupos que os apoiam, em assegurar os direitos necessários à realização da cidadania.

WhatsApp_Image_2022-01-08_at_15_18_04.jpeg
WhatsApp_Image_2022-01-08_at_15_18_04.jpeg

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?