Por Ian Ransom
SANTA CLARA, CALIFÓRNIA, 11 Jun (Reuters) - Nascidos em campos de refugiados, filhos de pais deslocados por conflitos na África, três jogadores mostrarão o novo rosto do futebol australiano na Copa do Mundo e tentarão atender ao apelo da nação por gols.
O técnico Tony Popovic aposta nos atacantes Mohamed Touré e Nestory Irankunda, dois jovens talentos que esperam disputar seus primeiros minutos em uma Copa do Mundo na partida de estreia contra a Turquia, no próximo sábado.
Aos 30 anos, Awer Mabil é o “irmão mais velho” da dupla e estará à disposição para apoiá-los como um mentor em sua segunda Copa do Mundo.
Os três compartilham a experiência de serem filhos de requerentes de asilo que subiram pela hierarquia do futebol na pacata capital estadual Adelaide.
Já aclamados entre a diáspora africana de 500 mil pessoas na Austrália, a química entre eles pode ser a chave para as esperanças da Austrália de avançar na fase de grupos e vencer uma partida de mata-mata de Copa do Mundo pela primeira vez em sua história.
“É o país que nos deu a oportunidade de viver”, disse Touré, de 22 anos.
“Então, acho que (a Copa do Mundo) seria a melhor maneira de retribuir e simplesmente fazer o que amo no mais alto nível.”
Touré, que joga na segunda divisão da Inglaterra, nasceu em um campo de refugiados na Guiné após seus pais fugirem da Libéria.
Apesar de ter apenas 10 partidas pela seleção, ele se tornou o atacante titular de Popovic depois de um início avassalador pelo Norwich City, no qual marcou nove gols em 11 partidas.
Ele é amigo íntimo de Irankunda, de 20 anos, que nasceu em um campo de refugiados na Tanzânia e também joga na segunda divisão inglesa, pelo Watford.
A badalada contratação de Irankunda pelo Bayern de Munique em 2024 não deu certo, mas o filho de pais burundianos se tornou um dos favoritos da torcida em 15 partidas pela Austrália, graças à sua energia e comemorações chamativas.
A primeira incursão de Mabil no futebol foi jogando com outras crianças em um campo de refugiados no Quênia, onde morou até os 10 anos, após a família ter sido deslocada pela guerra civil no Sudão.
Ignorado inicialmente por Popovic, o atacante com 38 partidas pela seleção foi convocado pela primeira vez em quase dois anos no último mês de março, após recuperar a forma pelo Castellón, da segunda divisão espanhola.
“Obviamente, tive um gostinho na última (Copa do Mundo), mas esta terá um significado especial porque acho que não foram dois anos fáceis para mim”, disse.
Antes praticamente dominadas por jogadores de ascendência europeia, as seleções da Austrália têm se tornado cada vez mais diversificadas.
Seis jogadores de ascendência africana — quase um quarto do elenco da Copa do Mundo — esperam a chance de entrar em campo na América do Norte, o dobro em relação ao Catar em 2022.
Quatro cresceram e jogaram em Adelaide, um improvável berço de talentos do futebol africano.
O imponente atacante Tete Yengi, que joga no Japão e marcou em sua estreia na partida de preparação para a Copa do Mundo da Austrália contra a Suíça, um empate por 1 a 1, é o outro membro do grupo de Adelaide.
Yengi, cujo irmão Kusini também já defendeu a seleção australiana, tem ascendência sul-sudanesa e um forte vínculo com Irankunda, seu ex-companheiro de equipe no Adelaide United.
O clube de Adelaide da A-League, principal campeonato da Austrália, tem fortes laços com as comunidades africanas da cidade e um histórico de promover jovens promessas, tendo dado a Irankunda sua estreia aos 15 anos.
“É por isso que continuamos revelando essas joias escondidas”, disse Deng Akoy, técnico sul-sudanês-australiano das categorias de base do Adelaide, à Reuters.
Embora a Austrália conceda asilo a milhares de refugiados todos os anos, a imigração se tornou uma questão politizada no país, com políticos populistas culpando-a pelos altos custos de moradia e pelos males sociais.
Jogadores como Touré e Irankunda têm a chance de mudar essa narrativa na Copa do Mundo e mostrar o sucesso do multiculturalismo, disse Akoy.
"O futebol australiano reflete a Austrália moderna. Então, isso é algo que todos nós devemos comemorar."
(Reportagem de Ian Ransom)



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