Início Coluna do Holanda Lei que define pleito para mandato tampão abre brecha para judicialização
Coluna do Holanda

Lei que define pleito para mandato tampão abre brecha para judicialização

Coluna do Holanda
Por Holanda
13/04/2026 01h05 — em Coluna do Holanda

A Assembleia Legislativa aprovou, em regime de urgência, a lei que organiza a eleição indireta para governador e vice nos dois últimos anos do mandato. Até aqui, nada além do que lhe compete: cabe ao Parlamento estabelecer regras, prazos e o modo como a votação será feita. O ponto que merece atenção está em um detalhe do texto: a vacância teria ocorrido “por causa não eleitoral”.

Pode parecer apenas uma expressão técnica. Mas ela carrega peso

Organizar a eleição é função da Assembleia. Definir, de forma definitiva, qual foi a natureza da renúncia é outra coisa. Isso não se resolve apenas colocando alterando açodadamente o texto da lei.

A causa de um ato público se examina pelos fatos — não pela redação posterior. E os fatos são conhecidos: houve renúncia simultânea do governador e do vice no último dia do prazo legal para deixar o cargo e disputar eleição. A partir dali, abriu-se caminho para a eleição indireta.

A lei sancionada afirma que a causa é “não eleitoral”. Mas a pergunta é simples: pode o próprio órgão que realizará a eleição declarar, por si só, qual foi a natureza do fato que tornou essa eleição possível?

A renúncia é um ato legal. A eleição indireta está prevista na Constituição Estadual. O debate não é sobre legalidade imediata — é sobre competência e finalidade.

Não basta que o ato esteja formalmente correto. É preciso que sua finalidade seja compatível com a Constituição. E quem examina finalidade, quando há dúvida, não é o próprio legislador interessado no resultado — é o Judiciário.

A Assembleia foi além do que está redigido na Constituição e assumiu também o risco natural de que o texto venha a ser questionado judicialmente.

A Assembleia pode organizar o rito. Mas não pode encerrar, sozinha, uma discussão constitucional. Para o cidadão, a questão é simples: as regras do jogo devem ser claras — e também neutras. Porque confiança pública não nasce apenas da rapidez em decidir. Nasce da certeza de que cada Poder respeitou os seus limites.

Coluna do Holanda

Coluna do Holanda

Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

Siga-nos no

Google News

Comentários (0)

Deixe seu comentário

Resolva a operação matemática acima
Seja o primeiro a comentar!
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?