Outro dia, estava em uma cafeteria, conversando com uma amiga e parei por alguns minutos e fiquei observando o movimento ao redor. Gente chegando atrasada, amigos colocando a conversa em dia, alguém respondendo mensagens enquanto o café esfriava, uma pessoa trabalhando diante do computador e outra simplesmente olhando pela janela. Cada um parecia carregar seus próprios pensamentos, preocupações, planos e histórias. E, vendo aquela mistura tão comum da vida acontecendo diante de mim, lembrei de uma teoria do Direito: o Diálogo das Fontes.
No Direito, de maneira simples, essa teoria mostra que nem sempre é preciso escolher uma regra e descartar completamente as outras. Em determinadas situações, elas podem conversar entre si e se complementar. Pensei em quantas vezes fazemos isso sem perceber. Quando tentamos conciliar trabalho e família, quando queremos ajudar alguém, mas também precisamos respeitar nossos próprios limites, quando o coração pede uma coisa e a razão aconselha outra. A vida quase nunca nos entrega situações prontas, com uma única resposta certa.
Isso também acontece nas relações. Duas pessoas podem gostar uma da outra e enxergar a vida de maneiras diferentes. Um amigo pode nos dizer algo que não queríamos ouvir e, ainda assim, ter razão em algum ponto. Podemos mudar de opinião sem apagar aquilo em que acreditávamos antes. Crescer talvez tenha muito disso: perceber que compreender o outro não significa necessariamente concordar com ele e que reconhecer um ponto de vista diferente não diminui o nosso.
Talvez o cotidiano seja o lugar onde mais exercitamos esses diálogos. É quando precisamos decidir se respondemos imediatamente ou esperamos a irritação passar; quando dividimos o tempo entre uma obrigação e alguém que precisa da nossa presença; quando percebemos que um plano antigo já não combina tanto com quem nos tornamos. São pequenas escolhas, aparentemente sem importância, mas que revelam o quanto estamos o tempo inteiro conciliando sentimentos, experiências, responsabilidades e desejos. Nem tudo precisa ser resolvido entre o “certo” e o “errado”. Às vezes, amadurecer é justamente entender as circunstâncias, ouvir mais e reagir menos.
Quando terminei o café, a cafeteria continuava igual, conversas, celulares, compromissos, chegadas e despedidas. Mas fiquei pensando que talvez nós também sejamos um pouco assim, feitos de muitas histórias acontecendo ao mesmo tempo. Nem sempre precisamos silenciar uma delas para ouvir a outra. Há momentos em que razão e sentimento, passado e presente, vontade e limite precisam apenas conversar. Porque viver não é encontrar uma resposta pronta para tudo. É aprender, aos poucos, a construir a nossa.
Andréa G. Ribeiro
Advogada • Cirurgiã-Dentista • Especialista em Direito Médico, Odontológico e da Saúde • Conselheira do CRO-AM • Membro da Comissão de Ética do CRO-AM • Membro da Comissão de Direito Odontológico Nacional da ABA • Membro da Comissão da Mulher em Odontologia do Conselho Federal de Odontologia (CFO) • Membro da ALACA • Dama Comendadora Grã-Cruz da CBC • Escritora
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