O Pix deixou de ser apenas um meio de pagamento. Em poucos anos, transformou-se em uma das mais bem-sucedidas infraestruturas econômicas já criadas pelo Estado brasileiro. Movimentando trilhões de reais por ano e alcançando a imensa maioria da população, o sistema se tornou parte da vida cotidiana do brasileiro: do grande empresário ao vendedor ambulante, do supermercado ao pequeno comércio de bairro.
Seu impacto vai muito além da praticidade de transferir dinheiro em segundos. O Pix reduziu custos, eliminou tarifas, substituiu TEDs e DOCs, enfraqueceu receitas históricas dos grandes bancos e abriu espaço para fintechs, pequenos empreendedores e consumidores antes afastados do sistema financeiro digital. Não foi apenas uma inovação tecnológica. Foi uma mudança estrutural no mercado financeiro brasileiro.
Talvez o dado mais impressionante seja o seu alcance social. O Pix incluiu milhões de brasileiros que antes não faziam transferências eletrônicas, aproximando pessoas comuns de uma economia mais rápida, menos burocrática e menos dependente da intermediação bancária tradicional. Em um país acostumado a políticas públicas caras, lentas e ineficientes, o Pix se tornou uma exceção rara: uma política de Estado barata para o usuário, eficiente na operação e massiva no resultado.
É exatamente por isso que a disputa política pela sua paternidade se tornou tão intensa. Governos gostam de associar sua imagem a políticas públicas bem-sucedidas. E poucas iniciativas brasileiras produziram resultados tão visíveis, tão mensuráveis e tão rapidamente percebidos pela população quanto o Pix.
Lula quer herdar politicamente o Pix porque entendeu que ele não é apenas um instrumento de pagamento. É um ativo político. É símbolo de modernização, inclusão financeira, eficiência estatal e enfrentamento indireto ao poder concentrado dos grandes bancos.
O problema é que o Pix não nasceu no atual governo. Foi desenvolvido institucionalmente pelo Banco Central, amadurecido tecnicamente ao longo dos anos e lançado para a população em novembro de 2020, durante o governo Bolsonaro, sob a presidência de Roberto Campos Neto no Banco Central.
Bolsonaro não criou sozinho o Pix. Lula também não criou o Pix. Mas foi no governo Bolsonaro que o Pix nasceu para o povo brasileiro, é isso é fato.
Por isso a tentativa de apropriação política incomoda. Não se trata apenas de disputar uma narrativa. Trata-se de reescrever a memória econômica recente do país. O Pix é tão bem-sucedido que todos querem posar ao lado dele. Na política, o sucesso sempre tem muitos pais. O fracasso, quase sempre, nasce órfão.
Hissa Abrahão
Hissa Abrahão é economista, professor universitário, mestre, doutorando, ex-deputado federal e vice-prefeito de Manaus.
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