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Com histórico de resistência, San Lorenzo enfrenta crise que ameaça seu futuro

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Clube marcado pela resistência, o San Lorenzo enfrenta o desafio de continuar existindo. Acéfala na direção, a agremiação tem diretores e presidente em constante briga. Está mergulhada em dívidas e ameaçada de liquidação.

"Temos uma administração que submete o clube a seguidas desgraças. Como é possível que o presidente ache que está no poder quando tem de sair da sede de camburão?", questionou o ex-dirigente e ex-candidato à presidência César Francis.

Ele se refere à cena do mês passado, quando o mandatário Marcelo Moretti foi atacado por sócios e torcedores no prédio do clube, na avenida La Plata. Teve de deixar o local correndo, cercado por policiais que o colocaram em um veículo das forças de segurança.

Moretti voltou ao poder graças a uma decisão da Justiça. Eleito no final de 2023, está envolvido em uma série de escândalos ligados a dinheiro de transações. Em um deles, foi gravado recebendo um pacote com US$ 25 mil (R$ 134 mil) da mãe de um jogador que desejava atuar nas categorias de base. Foi denunciado por suborno, mas disse que se tratava de uma doação ao clube.

O cartola pediu licença do cargo, e imagens foram publicadas em redes sociais de torcedores xingando-o em bares e restaurantes. Mesmo assim, ele decidiu voltar à presidência. Quando foi impedido pela comissão diretiva que o substituiu, acionou a Justiça.

"Nem louco renuncio", disse.

O presidente da AFA (Associação de Futebol Argentino), Claudio "Chiqui" Tapia, decidiu fazer algo. Chamou os dirigentes para uma reunião e tentar um acordo. Não aconteceu.

Tapia quer uma transição de três meses e novas eleições. Moretti e a oposição não aceitaram.

Existe a possibilidade de que a AFA decrete a intervenção em seu filiado para tentar restabelecer uma normalidade institucional.

"Nossa posição é que 90 dias [de transição] são poucos. Há muitos compromissos a cumprir. Acreditamos que as eleições deveriam ser marcadas para a metade de 2026", defendeu Sergio Costantino, líder da oposição e já candidato a presidente.

Enquanto isso, o San Lorenzo convive com dívidas que não tem como honrar. A principal delas —que ameaça seu futuro— é de US$ 4,7 milhões (R$ 25 milhões) com o AIS Investment Fund, fundo com sede em Luxemburgo, que cobra porcentagem da venda do atacante Adolfo Gaich para o CSKA Moscou (RUS). A instituição financeira diz que adiantou o dinheiro da contratação ao San Lorenzo, não o recebeu de volta e pede a falência do clube.

Até agora, não há acordo nem plano de pagamento apresentado ao credor.

Também há uma cobrança de US$ 4,3 milhões (R$ 23 milhões) do atacante Ignacio Piatti, jogador que fez parte do maior título da história da instituição: a Copa Libertadores de 2014.

Segundo a imprensa argentina, há mais débitos trabalhistas a ser quitados. Os salários de jogadores e funcionários não têm sido pagos. O cenário é de caos.

O acordo institucional, que pode destravar algum plano coerente para começar a pagar as dívidas e manter o San Lorenzo respirando, é atrapalhado pela política. Tapia gostaria de fechar um acordo de transição que mantivesse Moretti no comando. Algo que as demais partes não aceitam nem discutir.

O presidente da AFA desconfia de Costantino e aliados porque os vê como dirigentes que vieram do PRO (Proposta Republicana), legenda conservadora aliada do presidente da República, Javier Milei. Este é inimigo declarado de Tapia. Também não há disposição da AFA em incluir nas conversas nomes ligados à La Libertad Avanza, partido que comanda o país.

Tapia é opositor feroz de que os clubes argentinos se transformem em sociedades anônimas, proposta defendida por Milei. Ele não quer que o San Lorenzo, um dos times mais tradicionais do país, considerado um dos cinco grandes, caia nas mãos de defensores dessa ideia. A agremiação já foi 15 vezes campeã argentina, consideradas as eras profissional e amadora.

Nascido no sul de Buenos Aires, em Almagro, o San Lorenzo se fixou em Boedo ("barrio de murga y carnaval", diz uma das canções mais famosas de sua torcida), região conhecida pela classe trabalhadora, de tradição cultural e de literatura de resistência.

Em 1979, em grave crise econômica (certos hábitos não mudam) e pressionado pelo governo militar, o clube vendeu o terreno do seu estádio, o Gasómetro, para o Carrefour. A ditadura que governava o país acreditava que existiam muitos campos de futebol profissional em Buenos Aires.

Também se incomodava com o fato de a casa do San Lorenzo ser um centro comunitário com reuniões políticas e sindicais, clubes literários e bailes de tango. Era ponto de encontro da classe trabalhadora.

A chamada "volta a Boedo" se transformou em uma luta de décadas da torcida e de dirigentes, até a aprovação, em 2012, da Lei de Restituição Histórica, aprovada pela Legislatura de Buenos Aires. O texto reconheceu o direito do San Lorenzo de recuperar os direitos ao terreno. Logo depois, o clube fechou acordo com o Carrefour, que desocupou o imóvel.

O clube prepara, a depender de dinheiro, a construção de um novo estádio, que parte da torcida deseja que se chame Papa Francisco. Jorge Bergoglio (1936-2025), o 266º papa da Igreja Católica, era o mais famoso torcedor do time, que, no momento, precisa achar um jeito de continuar existindo.

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