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As duas realidades de Paulinho: capitão com Tite, sob desconfiança no Barcelona

Momento emblemático na carreira de um jogador de futebol, colocar a braçadeira de capitão da seleção brasileira remete a atletas cuja posição é indiscutível, seja na equipe nacional, seja no clube. Nesta terça-feira, quando entrar em campo para enfrentar a Colômbia, ocupando pela primeira vez o posto, Paulinho será a imagem de um homem entre duas realidades: com méritos, tem estabilidade fora de discussão com Tite; ao Barcelona, seu novo clube, chega sem créditos, com tudo por provar, com uma construção por iniciar.

Como se não bastasse ter resgatado Paulinho no futebol chinês num momento em que, aparentemente, o volante deixara de contar para a seleção brasileira, Tite fez dele titular num esquema tático que exigia do meio-campista funções similares às que executara com brilho no Corinthians campeão mundial em 2012. O resultado foi tão bom, a confiança é tamanha, que Tite interrompeu uma pergunta feita a Paulinho na entrevista coletiva de ontem, em Barranquilla. Um jornalista colocara em pauta a desconfiança que cerca o jogador em Barcelona. Tite tomou a palavra.

— Eu, uma vez, o tirei do time para colocar o Jucilei. Ele foi trabalhar, voltou e foi campeão do mundo com a gente (no Corinthians). Este é o Paulinho. A vida dele, a história dele é assim — disse Tite.

A postura do treinador é um sintoma da relação entre os dois, estabelecida a partir da certeza de que, no 4-1-4-1 da seleção, que exige dos meias interiores a capacidade de jogar de uma intermediária a outra, Paulinho tem o poder de marcação e a infiltração na área rival que Tite espera.

A cena era até curiosa. Uma coletiva pré-jogo, em que tradicionalmente Tite senta ao lado do jogador escolhido para ser capitão. O roteiro habitual é que este jogador responda a uma pauta totalmente positiva. Mas lá estava Paulinho, celebrado pelo que produz na seleção, obrigado a falar sobre a desconfiança que o cerca na Espanha.

— Cheguei ao Barcelona com muita gente questionando, mas acho que já passou este meu tempo de ligar para o que muita gente fala. Com todo o respeito que tenho por vocês da imprensa, vou fazer meu trabalho. Sou muito mais maduro do que antes — disse Paulinho.

Mas por que tanta desconfiança em torno de um jogador que é peça-chave na seleção que é tida, hoje, como uma das favoritas a vencer a próxima Copa do Mundo. É fato que, talvez até mais do que o Guangzhou Evergrande, da China, foi a seleção brasileira quem catapultou Paulinho ao Camp Nou. Mas não basta, ao olhar da torcida catalã. Primeiro, porque o volante brasileiro cumpriu um roteiro absolutamente fora do usual. A liga chinesa era tida como destino final de jogadores, um caminho sem alternativa de volta para as grandes competições do mundo. E um dos principais clubes do planeta foi buscar reforço na China. Paulinho inaugura uma rota e tem o peso de provar que a alternativa encontrada pela direção do Barcelona faz sentido.

Para piorar, o Barcelona é, há pelo menos duas temporadas, um clube envolvido na discussão em torno do estilo. Poucas entidades futebolísticas no mundo prezam tanto a forma de jogar futebol, de importância quase similar aos resultados. Luís Enrique já sofria críticas por entregar os destinos do time ao trio ofensivo que, no último verão europeu, perdeu Neymar para o PSG. O jogo vertical, sem tanto controle da bola, sem a rédea entregue aos meio-campistas, parecia desvirtuar o DNA Barça. E eis que chega Paulinho, muito menos um passador do que um meio-campista de infiltração, condução da bola, de transições. Não de controle, ao menos nas etapas da carreira que cumpriu até aqui. É capaz de executar de forma soberba um jogo dentro de suas características. Mas, involuntariamente, chega à Espanha como mais um símbolo de um suposto divórcio de um estilo de jogo que era senha de identidade do clube.

Pesa ainda uma espécie de selo, de chancela dada pelo futebol europeu a jogadores com sucesso no continente. Por vezes, é preciso uma experiência bem-sucedida para atestar a capacidade de jogar num grande da Europa. E os registros da carreira de Paulinho despertaram a torcida do Barcelona para um dado: a passagem pelo Tottenham, da Inglaterra, foi discretíssima. Tanto que, duas temporadas depois, foi vendido ao futebol chinês por valor inferior ao da compra.

Absoluto na seleção, Paulinho vai retomar, quando deixar a Colômbia, a caminhada para ganhar espaço no Camp Nou. Os indícios deste início de temporada apontam para uma tarefa árdua. Num time que joga com três meias, pelo menos quatro jogadores iniciam o ano, claramente, à frente do brasileiro: Busquets, Iniesta, Rakitic e Sergi Roberto. Daí em diante, há uma competição que envolve André Gomes, Denis Suárez, por vezes Aleix Vidal ou, mais adiante, o brasileiro Rafinha, que está machucado. A questão é que a contratação do brasileiro e até a aposta no atacante francês Dembélé, que pode chegar a 145 milhões de euros, indicam que, sob as ordens de Ernesto Valverde, pode estar sendo gestado um Barcelona físico, rápido e com aposta em transições. E não tão preocupado em reeditar um estilo, embora a cobrança exista para que o faça. E, neste modelo, Paulinho pode encontrar seu lugar.

— É mais um desafio que existe na minha vida. O Barcelona lutou muito para eu ir e eu senti que era o momento certo de aceitar. Talvez a oportunidade não viesse outra vez — afirmou Paulinho.

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