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Ministério Público do Rio apura suposto abandono de patrimônio doado por investidora histórica

Por Folha de São Paulo

15/05/2025 19h00 — em
Economia



BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) abriu inquérito para apurar um suposto abandono de patrimônio deixado pela aristocrata Eufrásia Teixeira Leite (1850-1930) na cidade de Vassouras, no centro-sul do estado.

Apontada como a primeira mulher a investir na Bolsa de Paris, a aristocrata que viveu no Brasil e na França deixou uma fortuna em ouro que valeria hoje pouco mais de R$ 1 bilhão. A maior parte dos recursos foi para instituições de Vassouras, sua cidade natal, e de Paris.

Os bens citados pela Promotoria incluem o hospital Eufrásia, o antigo colégio Regina Coeli e o prédio do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), que foram doados por Leite para atender às áreas de educação e saúde do município.

De acordo com a Promotoria, eles estão desativados e em avançado estado de deterioração.

A reportagem não conseguiu contato com a Santa Casa de Misericórdia de Vassouras, entidade responsável pela gestão do patrimônio deixado pela aristocrata.

Em publicação recente nas redes sociais, a instituição afirmou que enfrenta um "cenário delicado", com dívidas acumuladas de ações trabalhistas, impostos e junto a fornecedores e prestadores de serviço.

"Para reverter esse quadro, temos buscado utilizar os bens disponíveis com responsabilidade, firmando parcerias e realizando locações de imóveis -tudo isso com o objetivo de quitar compromissos, recuperar o equilíbrio financeiro e, assim, continuar cumprindo nosso propósito social", diz a nota.

O MP fluminense também cita a prefeitura municipal e o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) entre os investigados pelo inquérito. Os dois órgãos não retornaram as tentativas de contato até a publicação da reportagem.

A Promotoria diz que reuniu documentos históricos, o testamento original e imagens atuais dos imóveis abandonados, com foco na responsabilização por omissão e desvio da destinação original dos bens.

Eufrásia Leite nasceu em 1850, fruto de um casamento que uniu dois sobrenomes ricos da sociedade fluminense: os Teixeira Leite, do lado paterno; e os Correia e Castro, da linhagem materna.

Caçula de três irmãos, ela foi desde pequena educada para tomar as rédeas dos negócios da família. Seu irmão primogênito morreu ainda criança, e a irmã do meio tinha problemas de saúde.

Joaquim José Teixeira Leite (1812-1872), o pai, tinha uma firma que comissionava negócios de fazendeiros de café e emprestava dinheiro a juros para esses grandes proprietários de terras.

Após a morte dos pais, ela e a irmã se mudaram para Paris após receberem a herança. Foi quando Eufrásia aproveitou os ensinamentos de matemática financeira repassados pelo pai e se tornou investidora na Bolsa.

Apesar de não negociar os papéis diretamente, função que ela atribui a homens de sua confiança, era a aristocrata quem tomava as decisões de investimento, segundo informações do museu Casa da Hera.

Além de repassar a maior parte da fortuna para instituições ligadas à educação e saúde, Eufrásia, que não teve filhos, destinou um valor para ser distribuído "aos pobres de Vassouras" e outro montante "aos mendigos" que viviam no seu bairro em Paris. Também foram beneficiados alguns parentes do lado materno --apenas três primos.

Boa parte das instituições de Vassouras funciona em terras que foram dela. Além dos locais investigados pelo MP-RJ, também fazem parte da lista o quartel da polícia militar, a delegacia de polícia, o museu Casa da Hera, entre outros.


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