FMI diz que dívida da América Latina cresce ‘acima da zona de conforto’ e defende ajuste fiscal para crescimento
SÃO PAULO - Em estudo sobre os ajustes fiscal e de contas externas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou que a dívida da América Latina está subindo para níveis “acima da zona do conforto” e defendeu que os países da região devem continuar os esforços de ajuste para atingirem um crescimento maior. O Fundo ressaltou que a saída da recessão econômica na América Latina e Caribe será lenta no estudo "Uma História de Dois Ajustes", que foi divulgado nesta sexta-feira e mantém as projeções de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) para 2017 e 2018.
A análise, no entanto, não leva em conta a turbulência política que se acirrou no Brasil a partir de quarta-feira à noite.
O ajuste fiscal é necessário, segundo o FMI, diante da evolução da dívida da América Latina e Caribe. O montante subiu de cerca de 35% do PIB em 2008 para 46% atualmente. O estudo avalia que as políticas de ajuste fiscal devem ser mantidas.
“A dívida está crescendo acima da zona de conforto. O ajuste fiscal precisará continuar em muitos países”, aponta o documento. (....)
O Fundo reconhece o esforço em curso no Brasil, mas defende mais ações. “Parte do ajuste já está em andamento, mas é preciso fazer mais, tendo em conta que os resultados primários seguem abaixo dos níveis que estabilizam a dívida. Se deve prestar especial atenção ao desenho dos planos de ajuste que favoreçam o crescimento e sejam inclusivos”, segundo o relatório.
Os riscos para a adoção das políticas que levem a esses dois ajustes são a incerteza da política global, com o crescimento do nacionalismo econômico; potencial aperto nas condições de financiamento global; e uma desaceleração mais forte da economia chinesa e a queda do preço das commodities.
No caso do Brasil, a expectativa é que o PIB tenha uma leve alta de 0,2% neste ano e de 1,7% no ano que vem. Já são levados em conta no cenário do Brasil, a recuperação do preço das matérias primas exportadoras, como soja e minério de ferro, o estímulo ao consumo dado pela liberação das contas inativas do FGTS e avanço da Reforma da Previdência.
Entre os esforços que o Brasil está fazendo para o ajuste fiscal, o principal ponto, na avaliação do FMI, é justamente a reforma das regras da aposentadoria. "Essa reforma é necessária para garantir que o teto fixado de gasto federal seja viável e que o sistema de aposentadoria siga sendo capaz de sustentar as futuras gerações de brasileiros."
A projeção de crescimento para a região é de 1,1% para este ano e 2% para o ano que vem, após uma contração de 1% no ano passado. Os países da América Central tendem a ter um desempenho maior que a média e, na América do Sul, o destaque é para o Peru, com expansão acima de 3% (3,5% em 2017 e 3,7% em 2018).
O organismo multilateral entende que a recuperação do preço das commodities contribui para o ajuste externo (ou seja, um saldo melhor das transações financeiras e comerciais de uma economia com o resto do mundo) na América Latina, embora a melhora nesses indicadores se dê mais por conta da redução da demanda e consequente redução das importações.
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