Neste Dia de Finados, famílias que visitam os cemitérios públicos de Manaus caminham por um pedaço pouco lembrado da história da cidade. Até a primeira metade do século 19, a então vila não tinha um cemitério propriamente dito: os sepultamentos eram feitos em covas rasas perto do largo da Trincheira e da Igreja dos Remédios. A situação só começou a mudar em 1853, quando o presidente da província pediu a construção de um cemitério público, concluído no ano seguinte perto da própria igreja.
O mais antigo cemitério de Manaus ainda de pé, hoje tombado como patrimônio histórico estadual, é o conhecido como São João Batista ou Nossa Senhora das Graças, inaugurado em 5 de abril de 1891 — a primeira sepultura, de uma criança de apenas um ano, aconteceu no dia seguinte. Em 1897, um engenheiro alertou para o risco de contaminação dos igarapés próximos, e uma lei chegou a autorizar o fechamento do cemitério, medida que nunca saiu do papel. O espaço funcionou como o único cemitério da cidade até 1983, quando passou a aceitar apenas jazigos perpétuos já comprados.
Depois disso, Manaus passou a concentrar os novos sepultamentos no Tarumã, no cemitério Nossa Senhora Aparecida, aberto em 1975 e até hoje o único realmente disponível para novas sepulturas comuns na cidade — sua primeira sepultura, em 1976, foi de uma mulher indígena do povo Waimiri-Atroari. A capital soma ainda outros cemitérios históricos erguidos ao longo do rio e dos igarapés, como o de Nossa Senhora do Carmo, no Puraquequara, e o de Nossa Senhora das Lajes, no Mauazinho, só acessível por via fluvial na maior parte do ano.
Em anos recentes, a prefeitura já estimou perto de 600 mil visitantes passando pelos cemitérios públicos de Manaus só no Dia de Finados — um fluxo que, como quase tudo na capital amazonense, segue marcado pela geografia dos rios e igarapés que também moldaram, décadas atrás, a própria escolha de onde a cidade poderia enterrar seus mortos.
Aviso