Bastidores da Política - Tanques em Brasília e Maria apanhando de João em Manaus


Tanques em Brasília e Maria apanhando de João em Manaus

Por RAIMUNDO DE HOLANDA

10/08/2021 19h56 — em Bastidores da Política

Brasilia foi o assunto que correu o mundo com os tanques de guerra perfilados em frente  do Palácio do Planalto pela Marinha. Puro exibicionismo de uma força terceiro-mundista perdida no atraso do tempo. Quase ninguém ligou. O Brasil é outro, e quem viu a cena achou uma coisa bizarra e engraçada, típica  do circo mambembe montado pelo presidente Bolsonaro.

Paro aqui. Não vou comentar um episódio tão sem importância,  porque aqui fora  a vida nas casinhas do País, particularmente em Manaus, é a vida real, se repetindo a cada moradia simples da grande favela que nossos antepassados ousaram chamar de “Paris dos Trópicos”. Provavelmente eles nunca conheceram Paris...

As historinhas recheadas de pancada, sangue, violência, amor e ódio,  se repetem a cada dia  e acabam em uma delegacia de Polícia. Não posso revelar os nomes, mas vou chamá-los de Maria e João. Ela, bela, com as  pernas lisas e coxas grossas à mostra.  Ele, mulherengo, atrasado, bêbado, agressivo, ciumento. Gênios diferentes que se encontraram nas esquinas da vida e se imaginaram a  outra parte da laranja.

A história, que acabou no Judiciário do Amazonas, está contada em outras palavras no site Amazonas Direito. O fim de uma relação e uma ameaça mortal.

O tempo da paixão havia esgotado. Beijar aqueles lábios carnudos de Maria,  nunca mais! Dar mole pro João, nem pensar! Pior, para provocar, João decorou um trecho do poema “Receita de Mulher”, de Vinicius de Moraes. A frase, solta, repetida, já era uma violência para Maria: “Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos, ao abri-los ela não estará mais presente”.

João foi além: mandou Maria pastar. “Ou sai de casa ou fica. E, ficando eu queimo você e a casa".

O caso saiu da Polícia para o tribunal, onde o juiz de primeiro grau entendeu que não havia ameaça a vida de Maria.

Um promotor recorreu e agora  saiu a sentença final, reformada pela  Primeira Câmara Criminal do Amazonas.

O desembargador João Mauro Bessa, relator do caso, ressalta  que o efetivo temor causado na vítima, com ameaças praticadas no âmbito doméstico se materializaram com a promessa do réu em queimar a casa com tudo dentro, se a ofendida não saísse da residência, constituindo-se em ameaça condicional que não pode persistir, devendo ser afastada pelo Poder Judiciário.

Ponto para o o desembargador. João não verá mais Maria. Não eram bandas da mesma laranja. Ficou o exemplo de um Judiciário ativo e atento a falhas do juiz.

Mas é um caso onde felizmente não houve assassinatos. O que morreu foi o amor entre Maria e João. Um amor que talvez nunca tenha existido…

Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.