Quando o sargento reformado da Polícia Militar do Amazonas, Evandro da Silva Ramos, assassinado a mando da neta, pensou em constituir família, ele deve ter imaginado uma casa que permaneceria em pé por gerações. Filhos, netos, bisnetos. A casa, construída com cimento, argamassa, tijolos e brita seria povoada por almas que abririam janelas, sacudiriam lençóis. As crianças atirariam travesseiros em guerras de amor. O riso se espalharia pelas paredes e iriam além da rua. E ele, orgulhoso, assistiria aquilo como resultado de sementes trocadas com sua amada. Veio o primeiro filho, o segundo, os netos, a família crescendo, a mobilia mudando, as camas, as responsabilidades que os filhos nunca deixam de compartilhar com os avós, a violência das ruas que ele tinha que enfrentar para sustentar a casa.
Reformado, desejava passar a velhice ao lado dos netos, cuidando deles e esperando o inevitável, que viria inesperadamente como uma vela que se apaga ao vento. Mas teria construído a vida desejada, teria se realizado como pai e avô, vivido uma história, a sua história, já escrita, mas que mudaria num repente.
Não deve ter imaginado que, depois de driblar a morte tantas vezes em combate com criminosos na rua acabaria vitima de uma menininha - que carregou nos braços, trocou as fraldas, levou ao médico, cantou para que ela dormisse, mas crescesse com o desejo de matar. E que ele seria a vítima.
Tay, como ele a chamava, arquitetou sua morte com o namorado e um comparsa. A ideia era se apossar do dinheiro que o sargento guardava em casa.
Passei dois dias pensando nesse caso e como a vida pode, de uma hora para outra, transformar-se em um grande pesadelo. Como risos podem ser calados, como sonhos podem morrer. Como amor e ódio, inveja e cobiça habitam em pessoas que amamos, confiamos, admiramos.
Posso parecer piegas, mas conservar o amor, fortalecê-lo a cada dia é nossa tarefa diária. Amar incondicionalmente filhos, netos, amigos. E esperar deles o mesmo. E nunca permitir que o ódio, a inveja e cobiça saiam do submundo de nossos pensamentos. Porque são sentimentos presentes. E se eles aparecerem, é montar barreiras e dizer: esse não sou eu…


Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.


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