O discurso em torno da BR-319 repete um traço recorrente: transforma expectativa em projeção e projeção em promessa.
Esse padrão discursivo não surge por acaso. Ele reflete um ambiente institucional em que cada passo depende da sobrevivência ao próximo questionamento.
Nesse contexto, mesmo a recente legislação ambiental, apresentada como instrumento para acelerar o licenciamento de rodovias já existentes, não rompe a lógica do condicionamento. A norma melhora o enquadramento formal e reforça a narrativa de avanço, mas não elimina o cenário de incerteza. A projeção permanece opaca, cercada pelos mesmos “ses”, como se a mudança legal fosse suficiente para transformar hipótese em decisão sustentada.
Enquanto isso, os efeitos são concretos. O isolamento logístico persiste, os custos de transporte seguem elevados e a integração do Amazonas ao restante do país continua adiada. Anúncios pontuais — pontes reconstruídas, trechos isolados melhorados — não resolvem o problema central quando o trecho decisivo da rodovia permanece fora do presente. Avança-se de forma fragmentada, sem enfrentar o ponto que define a funcionalidade da estrada.
Reconhecer esse quadro não é negar esforço político nem desprezar intervenções realizadas. É, antes, chamar o debate para o lugar correto. Enquanto a BR-319 continuar sendo tratada como promessa dependente de cenários futuros e exceções políticas, ela seguirá existindo mais como discurso do que como política de Estado. Estrada que só se completa no amanhã nunca cumpre sua função no hoje.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.


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