O vice-presidente Hamilton Mourão não fez justiça a sua formação como egresso da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, onde teria feito "cursos de aperfeiçoamento de altos estudos militares”, ao propor uma resposta armada do Ocidente à Rússia. Para o vice-presidente brasileiro, sanções econômicas não bastam para deter Wladimir Putin, o presidente russo.
O que Mourão não percebe é o que está muito claro nas ações dos países liderados pelos Estados Unidos: que a Ucrânia não é membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte, como a Estônia, Letônia, Lituânia e outros países que se tornaram independentes depois da Extinção da União Soviética. É um simples candidato. E que uma ação militar para “deter a agressão russa”, significaria o início de uma guerra mundial, que ninguém quer.
Infeliz a posição do vice-presidente. É nesses momentos que é bom ser cidadão de um país secundário no cenário internacional, onde ninguém dá importância ao que seus dirigentes falam de forma impensada. Acorda Mourão!
Mas vamos além, analisar dois cenários muito parecidos.
Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003, em cima de uma mentira: confiscar armas de destruição em massa - o mundo apoiou. Anos depois, os próprios americanos, que destruiram um país próspero, admitiram que o argumento utilizado para a invasão era falho, inapropriado, injustificado. Em outras palavras, uma enganação.
Toda guerra tem uma mentira encapsulada de verdade para justificá-la. O que acontece hoje na Ucrânia, invadida por forças russas, a versão dada para a declaração de guerra ao menos tem uma meia verdade, o que não significa que seja aceitável: a decisão dos ucranianos de ingressarem na Organização do Tratado do Atlantico Norte.
A Otan foi criada para inibir o avanço da extinta União Soviética sobre países europeus e deter o socialismo/comunismo. Ser admitido na Otan é ter um guarda-chuva de defesa em caso de ameaça de invasão.
Mas a União Soviética acabou em 1991 e os países que a compunham foram declarados independentes. Por que a Otan não foi extinta se a ameaça que a URSS representava havia acabado? Porque os americanos não são bonzinhos como parecem. Tem a mania de querer dominar o mundo, de expandir sua influência, de pregar uma “liberdade”que eles não praticam. Então apostaram na decadência da Rússia e agruparam na Otan antigas repúblicas soviéticas.
O aceno dado à Ucrânia pelos americanos para ingressar na Otan acendeu o sinal vermelho em uma Rússia ignorada pelo Ocidente após a extinção da URSS, mas que se fortaleceu militarmente.
Na visão de Putin, a presença da Otan nas fronteiras do país representa uma grande ameaça. E de fato representa. Quem gostaria de ver um inimigo armado mudar para o lado da sua casa ? É o que significa eventual ingresso da Ucrânia na Otan, organização que continua existir exatamente como uma força para repelir influência seja russa ou chinesa.
Então, convenhamos, estamos ouvindo e lendo apenas uma versão dessa guerra, que é a versão dos EUA e dos europeus. Mais uma vez estamos sendo enganados, mais uma vez estamos ouvindo e lendo mentiras. O mundo mudou mesmo para pior. A pior guerra é a da desinformação.
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Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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