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Samanta Schweblin em 'Pássaros na Boca' expõe o terror inominável

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

24/06/2022 14h36 — em
Arte e Cultura



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em 1845, Domingo Faustino Sarmiento trazia à luz "Facundo: Civilização e Barbárie", considerada a obra fundadora da literatura argentina. Desde então, a aparente irreconciliabilidade entre uma e outra tem sido um tema caro à produção cultural do país.

No entanto, é na intersecção dessas duas lógicas que a escrita da argentina Samanta Schweblin atinge seu ápice. Seja em um trem que sai do campo "rumo à alegre civilização", um banheiro num descampado ou em um restaurante de beira de estrada, sua narrativa se desenvolve em um ponto de suspensão entre dois mundos. A barbárie, porém, espreita ambos.

Com domínio magistral da tensão superficial de cada página, a autora reivindica agora a atenção plena do leitor brasileiro. Reunidos em um único volume pela editora Fósforo, dois livros de contos de Schweblin, "Pássaros na Boca" e "Sete Casas Vazias" —este inédito em português— ganham tradução de Joca Reiners Terron após o lançamento do romance "Kentukis" no ano passado.

Transitando por uma arbitrariedade cuidadosamente construída, seus contos extraem o duvidoso de tudo aquilo que parece confiável: a casa, as relações familiares, uma lata de achocolatado. É quando as certezas se esfarelam —quando a estação de trem ou o banheiro na estrada se transformam em lugares de permanência involuntária— que suas histórias ganham vida.

Diante de contos que muitas vezes começam e terminam in media res, isto é, no meio dos fatos, o leitor vira cúmplice. A ele cabe inferir o subentendido e inventar o não dito. Longe de ser hermética, Schweblin é quase kafkiana na naturalidade exasperante com que descreve situações insólitas.

Há exceções. Se ela brilha nos subentendidos, nos raros momentos em que aparece uma voz em off para preencher lacunas a narrativa de Schweblin perde o viço. Outras vezes, cede à tentação da chave de ouro, mas parece fazê-lo em nome de um efeito antes político que estético. Assim, em "Mulheres Desesperadas" —cuja resolução se situa em algum lugar entre o remate de uma piada e um manifesto feminista— é o desfecho que define a mensagem.

Outro conto que poderia ser considerado feminista põe em primeiro plano a violência latente que atravessa o livro. Em "A Mala Pesada de Benavides", um feminicídio é festejado como uma obra de arte genial. Ao levar a banalização da violência contra a mulher às raias do cômico, Schweblin lhe restitui, por vias inversas, sua condição de inaceitável.

Nos contos de Schweblin há mundos que se tocam. Não só a frágil civilização se revela prenhe de barbárie como também convivem vivos e mortos, presença e desaparição, subterrâneo e superfície. Em mais de um conto, esta divisão colapsa sob as pás de cavadores de poços tão profundos quanto despropositados. O terror é completo porque é inominável.

Em "A Respiração Cavernosa", os limites móveis entre sanidade e loucura que são levados às últimas consequências. A deterioração física e mental da protagonista é comunicada ao leitor à força de um fascinante —porque angustiante— jogo de repetições, de pensamento obsessivo e desmemória.

"Um Homem sem Sorte", um dos contos mais influentes da vencedora do prêmio Casa de las Américas, move a trama ao redor dos limites da ética. Em todos os casos, o leitor é convocado a participar, julgar, perdoar ou condenar; não se leem os contos de Schweblin impunemente.

Diante de nosso reflexo de rejeitar o que nos parece grotesco ou alheio, o livro da argentina nos crava dois olhos bem abertos e parece dizer, como a protagonista de "Pássaros na Boca": "você também". Em sua escrita ressoa, como um lembrete necessário, a máxima de que nada do que é humano nos é estranho.

Em 1845, Domingo Faustino Sarmiento trazia à luz "Facundo: Civilização e Barbárie", considerada a obra fundadora da literatura argentina. Desde então, a aparente irreconciliabilidade entre uma e outra tem sido um tema caro à produção cultural do país.

No entanto, é na intersecção dessas duas lógicas que a escrita da argentina Samanta Schweblin atinge seu ápice. Seja em um trem que sai do campo "rumo à alegre civilização", um banheiro num descampado ou um restaurante de beira de estrada, sua narrativa se desenvolve em um ponto de suspensão entre dois mundos. A barbárie, porém, espreita ambos.

Com domínio magistral da tensão superficial de cada página, a autora reivindica agora a atenção plena do leitor brasileiro. Reunidos em um único volume pela editora Fósforo, dois livros de contos de Schweblin, "Pássaros na Boca" e "Sete Casas Vazias" —este inédito em português— ganham tradução de Joca Reiners Terron após o lançamento do romance "Kentukis" no ano passado.

Transitando por uma arbitrariedade cuidadosamente construída, seus contos extraem o duvidoso de tudo aquilo que parece confiável: a casa, as relações familiares, uma lata de achocolatado. É quando as certezas se esfarelam —quando a estação de trem ou o banheiro na estrada se transformam em lugares de permanência involuntária— que suas histórias ganham vida.

Diante de contos que muitas vezes começam e terminam in media res, isto é, no meio dos fatos, o leitor vira cúmplice. A ele cabe inferir o subentendido e inventar o não dito. Longe de ser hermética, Schweblin é quase kafkiana na naturalidade exasperante com que descreve situações insólitas.

Há exceções. Se ela brilha nos subentendidos, nos raros momentos em que aparece uma voz em off para preencher lacunas a narrativa de Schweblin perde o viço. Outras vezes, cede à tentação da chave de ouro, mas parece fazê-lo em nome de um efeito antes político que estético. Assim, em "Mulheres Desesperadas" —cuja resolução se situa em algum lugar entre o remate de uma piada e um manifesto feminista— é o desfecho que define a mensagem.

Outro conto que poderia ser considerado feminista põe em primeiro plano a violência latente que atravessa o livro. Em "A Mala Pesada de Benavides", um feminicídio é festejado como uma obra de arte genial. Ao levar a banalização da violência contra a mulher às raias do cômico, Schweblin lhe restitui, por vias inversas, sua condição de inaceitável.

Nos contos de Schweblin há mundos que se tocam. Não só a frágil civilização se revela prenhe de barbárie como também convivem vivos e mortos, presença e desaparição, subterrâneo e superfície. Em mais de um conto, esta divisão colapsa sob as pás de cavadores de poços tão profundos quanto despropositados. O terror é completo porque é inominável.

Em "A Respiração Cavernosa", os limites móveis entre sanidade e loucura que são levados às últimas consequências. A deterioração física e mental da protagonista é comunicada ao leitor à força de um fascinante —porque angustiante— jogo de repetições, de pensamento obsessivo e desmemória.

"Um Homem sem Sorte", um dos contos mais influentes da vencedora do prêmio Casa de las Américas, move a trama ao redor dos limites da ética. Em todos os casos, o leitor é convocado a participar, julgar, perdoar ou condenar; não se leem os contos de Schweblin impunemente.

Diante de nosso reflexo de rejeitar o que nos parece grotesco ou alheio, o livro da argentina nos crava dois olhos bem abertos e parece dizer, como a protagonista de "Pássaros na Boca": "você também". Em sua escrita ressoa, como um lembrete necessário, a máxima de que nada do que é humano nos é estranho.

PÁSSAROS NA BOCA E SETE CASAS VAZIAS

Preço R$ 69,90 (280 págs.); R$ 49,90 (ebook)

Autor Samanta Schweblin

Editora Fósforo

Tradução Joca Reiners Terron

Avaliação Ótimo



O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

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