'Memoria', na Mostra de SP, é primeiro Apichatpong rodado fora da Tailândia

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

23/10/2021 10h35 — em Arte e Cultura

CANNES, FRANÇA (FOLHAPRESS) - De uma hora para a outra, o diretor tailandês Apichatpong "Joe" Weerasethakul começou a ouvir estrondos, baques fortes que se repetiam algumas vezes em episódios de cinco minutos, geralmente pela manhã.

A dificuldade de comunicar aos outros algo que acontecia apenas em sua cabeça serviu de base para seu novo longa-metragem "Memoria", que dividiu o Prêmio do Júri do Festival de Cannes deste ano com "Ha'Berech", ou o joelho de Ahed, do israelense Nadav Lapid, e faz parte da Mostra de Cinema de São Paulo.

"Essa minha frustração com a impossibilidade de expressar o que ouvia levou à reflexão sobre como tirar uma ideia da nossa cabeça e transformá-la em cinema", disse ele em entrevista na França, durante o festival.

Em seu primeiro trabalho rodado fora da Tailândia, Joe acompanha a jornada de Jéssica, vivida pela atriz escocesa Tilda Swinton, pelas florestas e montanhas da Colômbia. A personagem sofre do mesmo mal que atormentou o diretor, chamado pelos médicos de síndrome da cabeça explosiva.

Como Joe, Jéssica tem insônias, interroga-se sobre o significado dos episódios sonoros e se esforça para reproduzir em ondas sintetizadas o que escuta internamente, com a ajuda de um técnico de áudio que se transforma em um dos vários mistérios de "Memoria".

A personagem tem pontos de contato também com a autobiografia da atriz, que atravessava um momento de luto. A Jéssica, que perdeu o marido, Tilda diz ter emprestado sua forma de responder às perdas: "Manter um pé na vida e outro num estado de conexão".

Em entrevista também na cidade francesa, a atriz diz que o clima místico do filme foi amplificado pela atmosfera colombiana. "Assim que chegamos, senti o impacto de quando li Gabriel Garcia Márquez na adolescência, do sentimento de que não há fronteiras para o fantástico. Acho que essa liberdade deixou Joe confortável."

O cineasta é conhecido e premiado por narrativas não lineares, em que real e irreal se sobrepõem, vivos e mortos convivem e atores amadores improvisam diálogos entre o documentário e a ficção.

É o caso de "Tio Boonmee", que ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 2010, "Mal dos Trópicos", que levou o Prêmio do Júri em 2004, e "Cemitério do Esplendor", que estreou também em Cannes em 2015, entre dezenas de trabalhos, geralmente de produção independente.

Tilda e Joe planejavam filmar juntos desde que se conheceram, há 17 anos, quando ela fez parte do júri que premiou "Mal dos Trópicos". Mas a atriz não conseguia se enxergar "encaixada" nas obras filmadas por ele sempre em tailandês, no seu país natal.

Daí veio o pacto de gravar onde ambos fossem estrangeiros. A Colômbia, que Joe conheceu em 2017, o atraiu imediatamente: "As nuvens que surgem e desaparecem rapidamente, as chuvas, deslizamentos, terremotos, há muito acontecendo com a natureza e com as pessoas, e sou apaixonado por isso".

Não só o território físico era desconhecido, afirma o diretor: "Estava acostumado a controlar todos os detalhes. Na Colômbia, porém, não sei que tipos de tecido existem, se há uma cadeira melhor para compor um cenário. Precisei delegar tudo isso e foquei apenas o ritmo do filme".

A redução da responsabilidade libertou-o das explosões. "Quando comecei a filmar, o som na minha cabeça desapareceu e passei a dormir profundamente", diz.

"Memoria" marca também uma nova fase em sua carreira, que deixa para trás o "cinema tailandês", afirma Joe. "É uma ilusão falar em cinema asiático, cinema chinês, na essência o que existe é essa técnica de contar histórias que todos compartilhamos".

No novo longa, ele quer mostrar que os humanos e a natureza são um só corpo. "Somos seres interconectados, que estão aqui apenas temporariamente; os elementos mudam o tempo todo e somos parte disso."

Para Tilda, que para filmar "Memoria" escureceu os cabelos, deixou-os crescerem e estudou espanhol, atuar em outra língua é um lembrete de que palavras podem ser obstáculos. "No cinema, é preciso deixar as imagens contarem a história."

O grande desafio, diz, foi o de imergir na paisagem colombiana e se tornar invisível. "Mais que a aparência de Jéssica, era a forma de se mover, sem deixar pegadas, sem fazer barulho nem dormir, a ausência de impacto que a integraria", conta.

A personagem, diz a dupla, não participa nem age; recebe, assiste, escuta. Funciona como um canal por onde escoam as lembranças dos outros. Numa das frases mais marcantes do filme, alguém lhe pergunta "Por que você está chorando se estas não são as suas memórias?".

"Jéssica é o cinema", responde Joe.


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