Maradona não é ídolo, é figura divina em Nápoles, diz diretor Paolo Sorrentino

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

01/12/2021 14h07 — em Arte e Cultura

VENEZA, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - O diretor Paolo Sorrentino era adolescente quando perdeu a mãe e o pai em um evento trágico do qual se safou com uma mãozinha de Diego Maradona, então craque do Napoli —foi para ver um jogo do ídolo que o jovem napolitano se separou momentaneamente dos pais; sem saber, escapava ali da própria morte.

Faz sentido que, para batizar o filme em que revisita sua juventude, o cineasta tenha optado por "A Mão de Deus", frase do próprio Don Diego, ao se referir a um célebre gol contra a Inglaterra na Copa de 1986, em que a bola entrou na rede de modo, digamos, pouco ortodoxo.

Hoje, o gol de mão iria para o VAR, mas, à época, não só foi legitimado como tonificou a mitologia de Maradona. Se para os argentinos tinha sabor de revanche política (a derrota para os ingleses nas Malvinas ainda estava entalada na garganta), aos napolitanos soou tanto como uma malandragem na melhor tradição do Pulcinella, personagem-súmula de Nápoles, como também o exemplo do poder algo miraculoso de Maradona para superar barreiras.

"Não é que Maradona seja um ídolo: é uma figura divina em Nápoles", diz Sorrentino, fumando um charuto, em sua passagem pelo último Festival de Veneza. "[Quando comprado pelo Napoli] Ele não teve recepção no aeroporto, como outros jogadores: entrou no campo pelo fundo do estádio, como se saísse de uma caverna. Como Cristo, que tinha morrido e ressuscitado. Ele tinha muitos aspectos de uma figura divina, e os napolitanos sempre foram muito sensíveis às divindades."

A gratidão pessoal do cineasta se mistura a sua admiração esportiva logo em uma cartela no começo do filme, em que diz que Maradona foi o "melhor jogador de todos os tempos".

Na entrevista, sabendo da nacionalidade deste repórter, Sorrentino se adianta. "Já sei o que vai perguntar: sobre o Maradona [ser o melhor]. Mas me desculpe: eu estou certo. Fazer o quê?"

Após uma baforada, prossegue: "E te explico o motivo: porque apesar de roliço e baixinho, era um jogador excepcional. Já Pelé era capaz de correr cem metros em 11 segundos: era um atleta. Mas Maradona, não".

Pessoalmente, Sorrentino é mais simpático que indica sua reputação, e se por vezes abusa do laconismo e de uma certa "sprezzatura" napolitana ao falar de seu processo criativo, parece haver ali um elemento antes de autodefesa que de arrogância. Às vezes é fácil ver nele traços de Fabietto, seu tímido alter ego no filme, que valeu ao jovem Filippo Scotti o troféu de ator revelação em Veneza.

O longa também ganharia o Grande Prêmio do Júri e agora representa a Itália na luta por uma vaga no Oscar de filme internacional. O próprio Sorrentino, aliás, foi o último cineasta do país a levar a estatueta, em 2015, por "A Grande Beleza", cujo estilo rebuscado fez muitos o verem como o herdeiro estético definitivo de Fellini —enquanto outros, mais céticos, o tomam por um reles imitador do compatriota.

Se "A Grande Beleza" era o "A Doce Vida" sorrentiniano, em sua visão sobre a decadência da elite de Roma, "A Mão de Deus" seria seu "Amarcord", nas reminiscências poéticas sobre a juventude de um cineasta. Mas o diretor rejeita a comparação.

"Meu filme é sobre fatos reais, e o de Fellini é sobre as memórias divertidas que ele tinha, algumas até inventadas. Na Itália, [o termo romanholo] ‘amarcord’ nos faz pensar em coisas das quais nos lembramos com prazer, mas muito do que está no meu filme eu não me lembro com tanta alegria assim", diz.

Também refuta paralelos com "A Grande Beleza". "O filme de agora é sobre a cidade que conheci muito bem, onde cresci. Em ‘Beleza’, procurei lugares especificamente bonitos de Roma, mas em ‘Mão’ incluí locais mais rotineiros, banais, da paisagem napolitana —não busquei a beleza da cidade", explica.

"Agora, também não é minha culpa se Nápoles é uma cidade linda, né? Como o Rio de Janeiro. Aliás, ambas se assemelham", diz, referindo-se à mistura entre charme e caos que garante o fascínio de ambas as problemáticas metrópoles costeiras.

Há também um traço social marcante que une as realidades carioca e napolitana, e que está no longa: apesar do machismo, as mulheres têm uma postura imponente, decidida.

"A estrutura familiar napolitana, sobretudo nos meios populares, tem na figura feminina sua base. E se você entra em um restaurante, uma loja ou negócio de família, em 90% dos casos o verá comandado por uma mulher."

Uma das mais marcantes figuras femininas de "A Mão de Deus" está na própria mãe de Fabietto, vivida por Teresa Saponangelo. Se sofria com o donjuanismo do marido, sabia se impor diante dele, mas sem deixar de lado o afeto.

"A memória que tenho de minha mãe é a de uma mulher que amava a vida apesar de qualquer problema. Mesmo em situações em que não tinha razões para amá-la."

Mas algumas mulheres surgem a partir de uma ótica relativamente antiquada —Sorrentino não teme objetificar o corpo feminino, valorizando suas curvas. O longa também se descola da sensibilidade de 2021 em trechos quando Fabietto e o pai riem de aspectos físicos de algumas pessoas.

"Como disse a escritora Lillian Hellman, interrogada pelo Comitê de Atividades Antiamericanas, no macartismo: ‘Não tenho a intenção de ajustar minha consciência à moda deste ano’", argumenta o cineasta, deixando claro que, entre as demandas do zeitgeist e o próprio impulso artístico, prefere se deixar pressionar pelo segundo.

De fato, o longa tem uma essência condizente com a época em que se passa, os anos 1980, década em que tudo, para o bem e para o mal, parecia mais livre, solto.

"Eram anos mais inocentes, e também mais estúpidos. E, talvez, mais divertidos."


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