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Livro 'Tempo Final' ficcionaliza últimos dias de Beckett com ousadia

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Tempo Final", primeiro livro de Maylis Bessarie, uma produtora de rádio francesa, foi vencedor do Goncourt de melhor romance de estreia em 2020 e ficcionaliza os últimos dias de vida de Samuel Beckett, quando o escritor vivia no Tiers-Temps, espécie de casa de repouso pública em Paris, onde morava desde 1928.

O livro é divido em três partes, primeiro, segundo e terceiro tempo, cada um representando um estágio da lenta deterioração mental do autor enquanto ele se prepara para a morte e revisita seus temas mais caros, como a linguagem, o exílio e o imaginário irlandês.

A primeira parte do livro apresenta um Beckett ainda lúcido e conjuga de forma extraordinária um fluxo de consciência narrado em uma voz que lembra com precisão o estilo do escritor, seu ritmo fragmentado e quase sincopado de escrita.

A voz pessoal de Besserie apresenta o romance como um esforço conjunto, ao mesmo tempo imaginação e homenagem, ficcionalização e incorporação do homem real. Conforme o livro avança, e o estado mental do autor se desorganiza, o tom da escritora se impõe, mas sem nunca perder o texto de seu objeto de vista.

É um trabalho difícil e também corajoso tomar como personagem grandes mestres da literatura e há algo de especialmente desobediente em uma jovem mulher que decide encarar um monstro sagrado em seu momento de fragilidade.

O Sam que Besserie apresenta é um gênio e um senhor idoso, alguém que ela reverencia, mas a quem não teme e que manipula com a liberdade necessária à ficção. O uso de referências e ecos textuais enriquece essa incorporação --Besserie está invocando não apenas Beckett a pessoa, mas Beckett o escritor. É talvez a maior qualidade do livro a forma como ela alinhava os dois enquanto tematiza justamente o papel dos gigantes literários.

James Joyce, amigo pessoal de Beckett por muitos anos e um escritor quase diametralmente oposto a ele em muitos sentidos, reaparece o tempo todo nas divagações do protagonista, hora como amigo, hora como o monumento maior da literatura irlandesa, alguém a quem Beckett deve satisfações toda vez que escolhe seguir seu próprio caminho.

Uma dessas diferenças mais importantes está na língua escolhida por cada um deles --Joyce, um escritor de língua inglesa, representa aqui uma lealdade espiritual com a Irlanda que Beckett abandona ao passar para o francês. Ao longo de toda sua carreira o autor escreveu em uma língua adotada e tornou essa passagem objeto e tema do texto.

Esse romance o representa ainda obcecado com as passagens, semelhanças e diferenças das línguas, um tema que a tradução faz um excelente trabalho em manter.

A primeira parte do romance, quando todos esses temas e reflexões são trazidos de forma mais robusta, é a mais interessante. Inclusive porque a autora alterna esse fluxo de consciência do personagem com fichas médicas e observações externas, um recurso formal que ajuda a montar o panorama de vida interior e exterior desse personagem que supomos conhecido.

Contudo, conforme o livro avança, embora uma abordagem original sobre a mortalidade se apresente, o leitor acaba preso em um grande pensamento repetido, com fantasmas que fazem cada vez menos sentido. Esse processo é certamente adequado ao tema e bastante realista, mas enquanto literatura um pouco menos atraente que um Beckett em plena posse de seus poderes mentais.

Ainda assim, "Tempo Final" é um livro notável, rico e ousado, anúncio de uma escritora complexa e original.

TEMPO FINAL

Preço: R$ 68 (160 págs.)

Autor: Maylis Besserie

Editora: Nós

Tradução: Lívia Bueloni Gonçalves

Avaliação: Muito bom

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