Funk ganha espaço na capital com festas, shows, exposição e apresentações grátis
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Museu da Língua Portuguesa inaugura neste sábado (15) a exposição "Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade", que investiga o gênero como expressão estética, política e social nascida nas periferias urbanas. Com 473 obras, entre fotos, vídeos e pinturas, ela tem o funk paulista como destaque.
O gênero, como afirma a mostra, deriva dos bailes black realizados por jovens no Rio de Janeiro e em São Paulo no fim dos anos 1960. "Mas o racismo ainda dificulta a compreensão do funk como parte legítima da cultura negra. Hoje, ele continua sendo território de resistência e criação, no qual a juventude transforma herança em linguagem contemporânea", diz Renata Prado, uma das curadoras.
Ao ocupar um museu de grande visibilidade, o funk é apresentado como arte, apesar de nem sempre ser entendido dessa maneira, diz Prado, também parte da Frente Nacional de Mulheres do Funk, grupo que tem como objetivo desenvolver ações culturais e educacionais sobre o tema.
Por sua participação nesse esforço, Prado foi ouvida na CPI dos Pancadões na Câmara Municipal de São Paulo, que apura a possibilidade de falhas da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) em fiscalizar a perturbação do sossego causada por bailes.
Para Thiago de Souza, professor de música clássica e autor de tese de doutorado pela USP que analisa o funk como uma música eletrônica da diáspora africana, o gênero enfrenta resistência e preconceitos desde a sua origem. "Com a criação da primeira CPI, no Rio de Janeiro, em 1995, começou a surgir na opinião pública o estereótipo do funkeiro como um bandido."
Depois de se popularizar no Rio, o gênero chegou ao estado pela Baixada Santista nos anos 1990, mantendo a energia das cidades litorâneas. O percurso do funk até São Paulo pode ser visto na mostra do Museu da Língua Portuguesa. Entre as obras, uma TV exibe vídeos que exploram os sotaques e ressaltam a ligação linguística entre o funk carioca e caiçara.
Da Baixada, o ritmo subiu para a capital paulista, onde encontrou o hip-hop e assumiu novas formas, entre elas, o funk ostentação -marcado pela estética das camisas polos com bandeiras, pelos rolezinhos nos shoppings e pelo discurso da ascensão social por meio do consumo. Em 2014, o movimento se consolidou com MCs, como Guimê, que transformaram a vertente em linguagem de poder e visibilidade para a juventude periférica.
Thiago de Souza, conhecido como Thiagson nas redes sociais, explica que o funk contemporâneo em São Paulo se diversificou em vários subgêneros, cada um com uma estética própria, moldada por influências locais e pela relação com a tecnologia.
Entre os exemplos estão o ritmado, o bruxaria, o automotivo e o mega, que exploram sonoridades distintas, com forte presença de sintetizadores e batidas eletrônicas, distanciando-se dos tambores e da percussão tradicional.
Ao comparar as produções regionais, o professor observa que o funk do Rio de Janeiro mantém uma base mais acelerada e festiva. Em Minas Gerais, por exemplo, as gravações são mais limpas, feitas em estúdio.
Já produção paulista conserva timbres ruidosos e gravações caseiras feitas, muitas vezes, pelo WhatsApp -prática que favorece a experimentação desses artistas. Além das diferenças rítmicas, as composições das letras também marcam as vertentes. O subgênero chamado de consciente expressa temáticas sociais como racismo, violência policial e realidade nas periferias.
O desejo por frequentar festas em lugares fechados com melhor infraestrutura motivou um grupo de DJs e produtores a criarem a Submundo 808, em 2023.
Com origem em Campinas, o evento cresceu rapidamente, o que abriu espaço para edições em outras cidades do estado. "A Submundo é a festa que a gente queria ter ido quando éramos mais novos", comenta André Miquelotti, o Tresk, um dos fundadores.
Para Tresk, a importância de eventos como esse é criar um ambiente em que pessoas negras, periféricas e LGBTQIA+ se sintam à vontade e representadas.
Com DJs no centro do público e telões inspirados em placares de ginásio de basquete, a festa faz sucesso com a geração Z -- e tem ingressos que se esgotam em minutos. "Percebemos a falta de eventos para as pessoas que vêm de onde a gente vem. A maioria dos artistas escalados no lineup é de pessoas pretas.
Queremos criar uma comunidade que se sinta confortável dentro dos nossos eventos", afirma Tresk. Além da festa, o empresário ajudou a criar um festival com o mesmo nome da festa -que teve público de 15 mil pessoas no início do mês.
Artistas também reforçam a importância da existência de uma programação pública e gratuita.
Nanda Tsunami, que se apresenta no Circuito Funk SP, projeto da Prefeitura de São Paulo, diz que a ação é fundamental para a cena.
"Hoje o funk ocupa novos espaços e isso é enriquecedor para o movimento. Mas é importante lembrar de quem construiu essa cena", diz Nanda. A seguir, veja uma programação para curtir funk até o fim do ano.
EXPOSIÇÃO
Funk: um Grito de Ousadia e Liberdade
A mostra investiga o gênero como expressão estética, política e social nascida nas periferias urbanas. Com 473 obras, entre fotos, vídeos e pinturas, tem o funk paulista como destaque.
Museu da Língua Portuguesa (portão A)- pça. da Luz, s/n, Luz, região central. Estr.: 15/11. Até agosto de 2026. Ter. a dom., das 9h às 16h. Ingr.: R$ 24 (inteira). Grátis aos finais de semana e diariamente para crianças até 7 anos
FESTAS
Corredinois Última do Ano
Conta com a interação entre DJs e MCs, além de uma conexão entre artistas e o público. O lineup tem artistas como DJ Vini da ZO, Bonnieclyde e Levynn.
Central 1926 - pça. da Bandeira, 137, Bela Vista, região central. Dia 27/11, das 22h às 5h. Ingr.: a partir de R$ 35, em shotgun.live
Fluxo - O Mandelão da Blitz Haus!
Reúne ritmos como funk, subgêneros de rave e mandelão, além do pop nacional e internacional. A edição terá DJs residentes da casa, Jay Franchini e o Kalixto.
Blitz Haus - r. Augusta, 657, Bela Vista, região central. Dia 20/11, das 21h às 6h. Ingr.: a partir de R$ 10, em Sympla
Malagueta Fest
A primeira edição da festa será marcada pelo Funkhall, mistura de funk com dancehall, um gênero jamaicano. A lista de atrações inclui o DJ Caio Prince, dono do hit "Sente a Magia" e a DJ Maloka, de "Mina de Vermelho".
Gold Bar - r. Giuseppe Boschi, Jardim Miriam, região sul. Dia 22/11, das 20h às 6h. Ingr.: a partir de R$ 20, em shotgun.live
Submundo 808 SP
A última edição do ano ainda não tem lineup definido. Mas Artistas como Kenan & Kel, Tresk, DJ Clei e Mu540 já se apresentaram em outras edições da festa.
Komplexo Tempo - av. Henry ford, 511, Parque da Mooca, região leste. Dia 13/12. Mais informações em @submundo808
Trevvo SP
O aniversário de quatro anos da festa traz um set com músicas eletrônicas periféricas, como o mandelão. MC Luanna, Kenan & Kel e Bonekinha Iraquiana se apresentam no evento.
Sociedade Rosas de Ouro - r. Coronel Euclides Machado, 1.066, Limão, região norte. Dia 22/11, das 21h às 6h30. Ingr.: a partir de R$ 45, em shotgun.live
SHOWS
Circuito Funk SP
A prefeitura da capital reúne uma programação de shows, desfiles, espetáculos e exibição de documentário em evento dedicado inteiramente ao funk. Entre os destaques de shows estão NandaTsunami, dona de músicas como "Pisca Duas Vezes"; MC Luanna, da música "Sexto Sentido"; e MC Davi, com hits como "Pé Direito" e "Set dos Casados".
A programação se divide entre espaços como Centros Culturais Grajaú, Cidade Tiradentes e Centro Cultural São Paulo. Dias 15, 16, 22, 23, 25, 25 e 30/11. Grátis. Mais informações em prefeitura.sp.gov.br
Donos da Cena
A casa de shows Audio será palco do encontro de três nomes que marcaram a história do funk. Mc Guimê, dono do sucesso "País do Futebol", Mc Lon, da música "Mundo M" e Mc Rodolfinho, do hit "Os Muleke É Liso".
Audio - av. Francisco Matarazzo, 694, Barra Funda, região oeste. Dia 19/11, a partir das 22h. Ingr.: a partir de R$ 60 (ingresso solidário), em Ticket360
Festival Cena 2k25
O festival de trap traz artistas do funk como Nanda Tsunami, além dos DJs da festa Submundo 808, Kenan e Kel, Tresk e Clei.
Estacionamento Neo Química Arena - av. Miguel Ignácio Curi, 111, Vila Carmosina, região leste. De 28 a 30/11. Ingr.: a partir de R$ 175 (ingresso social), em q2ingressos.com
Funk Experience
Conta com a apresentação de dois grandes nomes do ritmo. MC Livinho terá sucessos como "Cheia de Marra", "Fazer Falta" e "Novidade na Área" no repertório. Já MC Hariel cantará músicas como "Maçã Verde", "Lei do Retorno" e "Insônia".
Suhai Music Hall - av. das Nações Unidas, 22.540, Jurubatuba, região sul. Dia 23/11, a partir das 17h. Ingr.: a partir de R$ 120, em ticketstore.com.br
ASSUNTOS: Arte e Cultura