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'Esperando Godot' do Teatro Oficina evoca deus pagão e pós-guerra

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FOLHAPRESS - Perto do final de "Esperando Godot", na estreia no Sesc Pompeia nesta semana, o personagem que deveria trazer a mensagem de Godot, uma figura só mencionada e que muitos acreditam remeter a Deus, avisa que ele não virá. Não é preciso esperar mais. "Godot morreu." Naquele instante, uma gargalhada ecoou no teatro projetado por Lina Bo Bardi, antes de ser acompanhada pelo público. Era de Zé Celso, o diretor da peça.

A estreia coincidiu com seu aniversário de 85 anos, que ele estampou subvertendo a eventual expectativa de reverência a um autor teatral.

É menos matar a divindade cristã do que a fazer ressurgir em outras, pagãs, como deixa claro o Menino da peça, transformado por Zé Celso no malandro Zé Pelintra, a figura de terno e chapéu brancos na umbanda.

Tony Reis, que interpreta o personagem aproximando os teatros de Beckett e Zé, fascinou o público na estreia.

Não é a primeira encenação do diretor para o texto. Já havia feito uma versão há duas décadas, no Rio de Janeiro, que abraçou mais a comicidade defendida pelo autor irlandês, e aquela para o filme de Monique Gardenberg com belas imagens no Oficina, no ano passado. Antes, houve a cena da peça em "Cacilda", central para aquele espetáculo.

Desta vez, com produção apoiada pelo Sesc, chega ao palco trazendo Alexandre Borges de volta a um espetáculo da companhia. O ator foi o rei Cláudio, antagonista do príncipe Hamlet de Marcelo Drummond, no retorno do Oficina em 1993.

Agora os dois respondem por Vladimir e Estragão, os mendigos ou vagabundos de chapéu-coco que esperam Godot num cenário de pós-guerra nuclear. A montagem inclui "No Fim do Mundo" como subtítulo e é precedida por um vídeo com cenas contemporâneas.

É uma dupla cômica, como tantas da metade do século 20 no teatro popular e no cinema, de "O Gordo e o Magro" aos brasileiros Oscarito e Grande Otelo. A interação de ambos, abrindo o primeiro ato e depois o segundo, é a marca desta nova encenação.

Também sua idade. O sereno e paciente Didi de Borges contrasta com o ainda combativo e iconoclasta Gogô de Drummond. Seus diálogos remetem de maneira intermitente ao público, cortando o realismo e amplificando o comentário crítico da própria cena, se encaixando ao metateatro beckettiano.

Mas a relação de cumplicidade dos dois não se sustenta com a entrada avassaladora do Pozzo de Ricardo Bittencourt, evidenciando falta de sintonia fina na montagem e sua estreia algo apressada.

Em especial quanto ao prolongamento da cena, que começa no alto e vai se desgastando, embora Pozzo seja um papel que o ator veste bem, transbordante, como uma peça dentro da peça. Vladimir e Estragão, após se manterem quase como espectadores, recuperam parte do jogo —e do público— no segundo ato.

ESPERANDO GODOT

Avaliação Ótimo

Quando Até 17 de abril. Qua.: a sáb.: 19h; dom.: 17h (15 de abril, feriado da Sexta-feira Santa, não haverá apresentação)

Onde No Sesc Pompeia - r. Clélia, 93, São Paulo

Preço R$ 20 a R$ 40

Classificação 18 anos

Autor Samuel Beckett

Elenco Catherine Hirsch, Marcelo Drummond e Alexandre Borges

Direção José Celso Martinez Corrêa

Link: https://www.sescsp.org.br/

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