'Annette' é quase uma obra-prima sobre um mundo sem desejo

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

18/10/2021 13h04 — em Arte e Cultura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sobre "Annette" é preciso ser muito pessoal. Não gosto de cinema afetado, não gosto da sobrecarga de artifício que Leos Carax impõe a seus trabalhos. São gostos talvez pessoais, mas que arriscam contaminar o juízo sobre o novo filme do diretor francês. "Annette" é uma apoteose de efeitos; eles são tão presentes que abrem, sim, caminho para a verdade. É arte tanto quanto aquela --de um Abbas Kiarostami, por exemplo-- que finge se passar deles.

Carax aproxima aqui dois polos radicais da arte, o humor e o canto lírico. Ou, se se preferir, o macaco e a soprano. O humor corre por conta de Henry McHenry, papel de Adam Driver, e seu sucesso enorme parece provir da capacidade de agredir seu público.

Na primeira cena após a deliciosa abertura Henry aparece de costas, com um roupão verde, parecendo lutador de boxe. É assim que ele entra no palco, vestindo um calção preto e o roupão que cobre seu rosto. Cobre e encobre -o que vemos desde já é a representação clássica da morte.

Seu grande amor, Ann, papel de Marion Cotillard, é a soprano. Morre e ressuscita todas as noites, avisa Henry. Morre ao cantar e ressuscita para receber o aplauso consagrador do público. São dois artistas do espetáculo, fazem enorme sucesso, vão se casar e ter uma filha, Annette.

O interesse não provém da história, mas de certos procedimentos. Primeiro, é um filme cantado e rimado, à maneira do Jacques Demy de "Os Guarda-Chuvas do Amor", mas, muito longe da delicadeza deste. Mas não estamos no mundo feliz do pós-Guerra --feliz ao menos para europeus. O mundo é outro, duro, rude, pede o humor agressivo de Henry e a morte ritual que Ann repete a cada noite.

O produto desse amor louco, Annette, nos lança em outro território, o do horror. Annette não é bem uma criança, mas uma boneca. À maneira dos bonecos aterrorizantes de tantos outros filmes. Bonecas, palhaços, também podem proporcionar efeito contrário.

É o caso de Henry, palhaço que se revelará não só agressivo, mas aterrorizante. Suas fantasias sobre a morte, cada vez mais claras, e também sobre a vida pairam como um perigo permanente sobre ele e sobre os outros. O público agora o vaia. Até que, é bom saber desde já, Ann morre. Sua morte será um problema para o imenso público que a ama. Quem, agora, morrerá por ele, todas as noites?

O espírito sobreviverá na boneca para assombrar o torturado Henry. Ao mesmo tempo, o filme chega à plenitude do artifício -a pequena Annette se revela uma grande cantora. Henry agora se prepara para explorar "o fenômeno" da bebê cantora, com a cumplicidade do ex-acompanhante de Ann, desde sempre apaixonado pela cantora e que também se tem na conta de possível pai de Annette.

A bebê cantora, ou melhor, a boneca cantora -sua simples existência já nos remete a um mundo estilhaçado, em que a bela imagem da bolha de ar colorida na piscina da mansão onde mora o casal sobrevive apenas como um sonho. Os pés de Carax aqui ainda tocarão a Terra, visitarão o nosso mundo. Mas disso veremos apenas a ruína. Por exemplo, um homem que no tribunal, quando pedem que ele jure "dizer a verdade", ele diz que não. "Se eu disser a verdade, vocês me matam."

Ao mesmo tempo em que chega à plenitude do artificio como fundamento da arte, Carax faz a boneca ganhar vida própria. Já não é mais objeto de terror, nem signo do fim do desejo de Henry por Ann, nada disso, tem também sua vontade própria.

Como se vê, "Annette" transita do feliz ao trágico, da comédia ao horror, do espetáculo à denúncia do espetáculo, da fama à denúncia do mundo disparatado das visualizações e dos cliques. Apesar de momentos pesados --o trágico e o terrível cobram seu preço-- este é de longe o melhor filme musical desde que Lars von Trier filmou Bjork em "Dançando no Escuro", isso no ano 2000.

O mundo de então já não era inocente --isso só acontece em "La La Land", agradável e superficial. O mundo de hoje, aos olhos de Carax, é uma massa sem desejo real, destino, ou direção, cheia de corpos tomados por uma dor apenas mitigada pelos outros que, pelo espetáculo, sobem ao palco para nos livrar, por uma hora que seja, dos abismos que nos afligem.

Para resumir, "Annette" é um belo filme, talvez uma obra-prima.

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ANNETTE

Quando: De 21/10 até 3/11, em sessões da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Onde: Nos cinemas

Elenco: Adam Driver, Marion Cotillard, Simon Helberg

Produção: França/EUA, 2021

Direção: Leos Carax

Avaliação: Muito bom


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