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O que rola nos bastidores

Por Aldisio Filgueiras*


Ao contrário do que pensa a minha amiga Vanessa Grazziotin, a próxima senadora do Amazonas será a Sandra Braga. Vanessa já deveria saber disso: no Amazonas é assim, a gente vota num candidato e elege outro. Alguém lembra do Alfredo Nascimento? Pois é, ele foi eleito, mas quem virou senador foi o João Pedro. Alfredo foi parar no Ministério dos Transportes, com a larga experiência adquirida em Manaus no exercício do péssimo serviço de transporte coletivo que ele nos doou quando prefeito. Como faltam poucos dias para as eleições, eu fico pensando nisso nesta manhã de domingo em que umidade relativa do ar não passa dos 60% e me irrita porque sou, como todo amazonense, anfíbio, acostumado a respirar debaixo d´água (gosto de pensar que anfíbios respiram debaixo d´água, não me corrijam, por favor).

O Eron, o outro B do PCdoB, era deputado estadual e enchia o saco do Eduardo Braga até virar secretário da Agricultura, coisa que o Amazonas não tem. Até hoje, Eron, estou esperando o anunciado bacalhau de pirarucu que não sai da gaveta. Meus amigos de todo o Brasil me cobram: que história de pescador é essa, Aldisio? Os vereadores também viram secretários municipais. Ninguém vota em ministro ou secretário de Estado ou do município. Ninguém vota em suplente, mas ele se transforma em titular. No Amazonas, é assim, a gente acaba enxergando o que não vê, graças aos parintinenses, que inventaram um boi que voa.

Outra que foi no papo do Lula é a minha amicíssima Marilene Corrêa. Ela quer ser senadora, mas com aquele batom cor de açaí que ela usa na televisão, sei não. Pois bem, como eu enxergo até o que vejo, sei que o Artur Virgílio é quem vai dialogar com a Sandra no Senado – muito melhor, convenhamos, do que ouvir o Suplicy roncando no plenário. Eduardo vai ser ministro da Dilma Rousseff, tomem nota. Talvez ocupe a pasta dos Transportes, como vingança do Lula, que fez tanto para esconder a incompetência treinada do Alfredo Nascimento, ou a do Meio Ambiente, afinal, só quem acha que sabe mais sobre a Amazônia do que o Eduardo é a Marilene (a Vanessa não sabe nada, por mais que o agrônomo Eron se esforce).

Claro, eu não sou o Durango Duarte, que sabe ler o que está escrito nas estrelas; sou apenas um eleitor, preocupado em saber quem será, enfim, eleito com o meu voto: o ministro ou a senadora do B, neste caso, Braga. Todo mundo é Lula. E como a Dilma não diz nada sobre a sua questão de saúde, quem sabe a presidenta do país não acabe sendo um presidente, Michel Temer? Aí, sim, o PMDB tomaria posse dessas capitanias hereditárias equivocadamente chamadas de Brasil. Mas qual é mesmo o bastidor desse cenário de faz de conta?

Lula jamais escondeu a inveja que tem de Hugo Chávez. E não se cala. Já avisou, mais de uma vez, que vai dar pitico no governo de Dilma (ou de Temer, desculpem, é cruel, mas quem criou o mundo assim?). E pouco se importa quem seja o governador do Amazonas – quem não quer que seja o Alfredo sou eu, mas quem sou eu, que só tenho sete mil (e)leitores e (e)leitoras, diante da força de Lula? Todo mundo é Lula. Vanessa (quem diria) e Marilene são Lula. Qual é o papel (ditado por Lula) dessas senhoras nesta eleição? Tirar votos e, se possível, derrotar o Artur Neto. Lula sabe e já proclamou para (ouçam o que ele diz quando aparece no horário gratuito da Vanessa, e não da Marilene que é “a senadora do Lula e da Dilma”). Lula quer um Senado dócil, que faça tudo que o seu mestre mandar. Só um Senado assim, castrado, é que pode dar ao Lula o mandato eterno. Foi a resistência democrática do Senado que recusou ao Lula a sua igualdade constitucional com Hugo Chávez. Lula não desiste.

Eu sempre reconheci e respeitei o ideário socialista de Vanessa e Marilene, eu próprio socialista, materialista, ateu e marxista, porque não sei de outro tipo de socialista e essa conversa de “correlação de forças”, ou seja, vamos sentar no colo do poderoso de plantão, jamais engoli. Tanto quanto eu saiba, Artur Neto não é socialista, materialista, ateu e marxista. Mas um governo só presta se tiver uma oposição articulada, mesmo que seja insensata. E o que está faltando ao Brasil, hoje e agora, é oposição. Neste momento, não existe vida inteligente no país. Todo mundo respira pelo preço de uma bolsa família, na verdade uma bolha prestes a estourar. Adivinhe quem vai pagar por isso.

* Jornalista, escritor, membro da Academia Amazonense de Letras e do Teatro Experimental do Sesc – [email protected]

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