A prisão do desembargador aposentado Rafael de Araújo Romano, após o trânsito em julgado da condenação, reacende um debate que muita gente evita enfrentar: até que ponto o sistema penal, ao tentar proteger, não acaba comprometendo a própria lógica de justiça?
Ainda penso como em 2018, quando o caso explodiu na mídia:
Leia a coluna de 21/02/2018:
A proteção de crianças e adolescentes é um consenso absoluto. Mas, quando essa proteção ingressa no processo penal — onde está em jogo a liberdade — o cuidado precisa ser ainda maior, porque não se trata apenas de acolher, mas de julgar com segurança.
Em muitos casos de crimes sexuais, a palavra da vítima ganha um peso determinante, o que é compreensível diante das dificuldades de prova. O problema surge quando essa valorização, na prática, se aproxima de uma presunção, reduzindo o espaço para questionamento.
A lógica de que quem acusa deve provar não pode ser silenciosamente enfraquecida. A dúvida, que sempre foi uma garantia fundamental, não pode desaparecer justamente onde o risco de erro é mais sensível.
Há ainda um aspecto humano que não pode ser ignorado. Dentro das próprias famílias, onde muitos desses casos se desenvolvem, convivem afetos, conflitos e, por vezes, rupturas profundas. Em certos contextos, versões dos fatos podem se formar ao longo do tempo, ganhando camadas e complexidade — nem sempre imunes a ressentimentos. Isso não invalida denúncias, mas impõe ao sistema um dever ainda maior de cautela na reconstrução da verdade.
Quando essas questões chegam às redes sociais, o cenário se intensifica. Narrativas são amplificadas, emoções se inflamam e o espaço para a dúvida se reduz drasticamente.
Forma-se, muitas vezes, um ambiente de julgamento antecipado, em que a pressão social contamina a própria percepção de justiça. Nesse contexto, em vez de fortalecer a produção de prova e a qualidade das investigações, o sistema corre o risco de se ajustar à expectativa de resposta rápida.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.


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