Manaus/AM - Um estudo realizado nos rios do Amazonas descobriu uma relação entre a cor das águas e a incidência de casos de malária na região. O trabalho foi tema recente de reportagem da Revista Forbes.
A pesquisa da Fiocruz Amazônia, em parceria com a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento, descobriu que as localidades próximas aos rios de coloração preta apresentam maior número de casos de malária, quando comparados aos chamados rios de águas brancas, que possuem cores turvas e barrentas, como é o caso do Solimões, Amazonas, Madeira e Juruá.
A pesquisadora Fernanda Fonseca, vice-chefe do Laboratório de Modelagem em Estatística, Geoprocessamento e Epidemiologia (LEGEPI), explica que as águas do rios de cor escura, a exemplo do Rio Negro, por carregarem menos sedimentos e serem mais ácidas, podem favorecer a proliferação do mosquito Anopheles darlingi, transmissor da doença.
“No Brasil, a malária está concentrada na região amazônica e os rios desempenham um papel importante no ciclo de vida da doença, uma vez que o vetor se reproduz em ambientes aquáticos. Nesse contexto, o estudo propôs realizar uma abordagem baseada em hipóteses que correlacionaram as cores das águas e a incidência da doença, a fim de determinar se as características do tipo de cor da água influenciam na distribuição da doença”, diz Fernanda.
Os resultados, segundo os autores da pesquisa Jesem Orellana e Antonio Balieiro, Naziano Filizola (INPA); Jean-Michel Martinez (Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento) e James Dean Santos (UFAM), ajudam a identificar os locais com maior risco de transmissão de malária, o que pode contribuir para um planejamento mais preciso de ações voltadas ao controle da doença na região.
As análises incorporam dados de 50 dos 62 municípios do Estado do Amazonas e foram efetuadas a partir de imagens de satélite do aplicativo Google Earth, de dados do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos (SNIRH), da base de dados do Observatório do Ambiente, Pesquisa em Hidrologia e Geodinâmica da bacia Amazônica e do Sistema de Vigilância Epidemiológica de Malária (SIVEP-Malária), do Ministério da Saúde.
Fernanda ressalta que, apesar dos avanços dos últimos anos na eliminação da doença, em 2021 países como Venezuela, Brasil e Colômbia foram responsáveis por quase 80% dos casos na região das Américas.
“A situação epidemiológica continua preocupante e desafios como ter dados confiáveis sobre a incidência e distribuição da doença, bem como estratégias adaptadas localmente para melhorar o diagnóstico precoce ou o acesso oportuno ao tratamento, continuam sendo desafios importantes, especialmente em grupos e regiões vulneráveis”, afirma a pesquisadora, citando como exemplos os povos indígenas que vivem em áreas remotas e degradadas, geralmente de difícil acesso ou insuficientemente alcançadas pelos serviços de saúde, como o que se observa em áreas de exploração madeireira ilegal e extração mineral na Amazônia.
O estudo revela que, comparando os valores mais baixos do indicador de incidência de malária (IPA) entre as três cores de água avaliadas, os níveis médios dos rios de águas pretas foram substancialmente superiores aos outros dois, uma vez que a probabilidade de incidência da malária é maior nos rios de águas pretas, em comparação aos rios de águas brancas e de águas mistas, ficou próximo de 99%, em ambas as comparações.
AMAZONAS
Fernanda observa que, como o Amazonas tem sido historicamente um dos estados com maior incidência da doença no Brasil, a partir de 2002, o Programa Nacional de Controle da Malária, do Ministério da Saúde, incentivou fortemente o Estado no enfrentamento da doença. Foram desenvolvidas ações de fortalecimento da gestão local, com apoio técnico, maior acesso a mosquiteiros inseticidas de longa duração, testes de diagnóstico convencionais e rápidos, melhorias nas redes de laboratórios de diagnóstico, educação sanitária e formação de trabalhadores em saúde.
O estudo mostrou que havia uma tendencia favorável de diminuição da incidência de malária no Amazonas, entre 2003 e 2019. No entanto, o epidemiologista Jesem Orellana, chefe do LEGEPI, destaca que mais recentemente o cenário se tornou desfavorável, já que em 2021, o Amazonas estava entre os cinco estados da região amazônica que não atingiram a meta máxima para casos autóctones, com 17,4% (60.380) casos a mais que o esperado (51.416).
Outra informação que também mostra o agravamento da situação epidemiológica da malária no Amazonas é a dos municípios amazônicos considerados de alto risco, já que dos 29 municípios classificados como de alto risco pelo Ministério da Saúde, 14 ou cerca de metade estavam no Amazonas em 2021. (ver: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/m/malaria/situacao-epidemiologica-da-malaria/boletins-epidemiologicos -de-malaria/boletim -epidemiologico-vol-53-no17-2022-panorama-epidemiologico-da-malaria-em-2021-buscando-o-caminho-para-a-eliminacao-da-malaria-no-brasil/view).



