Manaus/AM - A retirada dos nomes dos médicos amazonenses Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda da lista de agraciados com a Ordem Nacional do Mérito Científico, pelo presidente da República Jair Bolsonaro, levou à renúncia coletiva de 21 outros cientistas contemplados com a ordem.
O motivo da exclusão dos nomes dos dois pesquisadores foi por serem críticos às políticas para a saúde executadas pelo atual governo.
Tanto Adele Benzaken quanto Marcus Lacerda disseram que o dirigente do Palácio do Planalto é quem precisa explicar a retirada dos nomes deles da lista divulgada inicialmente em decreto presidencial do último dia 3 de novembro de 2021 e depois modificada em nova publicação no dia 5 seguinte.
Marcus Lacerda foi um dos responsáveis pela pesquisa no Amazonas que apresentou evidências sobre a não eficácia do uso da cloroquina no tratamento de pacientes graves com Covid-19. A pesquisa contou com mais de 70 pesquisadores, estudantes de pós-graduação e colaboradores de instituições com tradição em pesquisa, como Fiocruz, Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, Universidade do Estado do Amazonas e Universidade de São Paulo.
Antes de ocupar a direção da Fiocruz Amazônia, Adele Benzaken foi, durante cinco anos, diretora do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), HIV e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, tendo tido enormes contribuições na formulação de políticas públicas para a área.
Adele disse que o compromisso dela continua inabalável com a saúde pública do nosso País e com as populações vulneráveis com as quais sempre trabalhou.
Em notas divulgadas na imprensa, a Fundação Oswaldo Cruz e um grupo de 21 cientistas condecorados com a Ordem Nacional do Mérito Científico, manifestaram sua indignação, protesto e repúdio pela exclusão arbitrária dos renomados pesquisadores.
Para os cientistas, a exclusão dos nomes de Adele Benzaken e Marcus Lacerda, é inaceitável sob todos os aspectos e torna-se ainda mais condenável por ter ocorrido em menos de 48 horas após a publicação inicial, em mais uma clara demonstração de perseguição a cientistas, configurando um novo passo do sistemático ataque à Ciência e Tecnologia por parte do governo vigente.
“Enquanto cientistas, não compactuamos com a forma pela qual o negacionismo em geral, as perseguições a colegas cientistas e os recentes cortes nos orçamentos federais para a ciência e tecnologia têm sido utilizados como ferramentas para fazer retroceder os importantes progressos alcançados pela comunidade cientifica brasileira nas últimas décadas”, afirmam os cientistas.
Ao destacar que a Ordem Nacional do Mérito Científico, fundada em 1993, é um instrumento de Estado para reconhecer contribuições científicas e técnicas de personalidades brasileiras e estrangeiras, cuja indicação é feita por especialistas da área, o mérito científico (como não poderia deixar de ser) foi o único parâmetro considerado para a inclusão de um nome na lista.
Embora tenham considerado gratificante ter os nomes na lista, os pesquisadores reconhecem que a homenagem oferecida por um Governo Federal que não apenas ignora a ciência, mas ativamente boicota as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva, não é condizente com as trajetórias científicas e deles e por isso a recusam coletivamente.



