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Marceneiro morto por PM em São Paulo era religioso e tímido, contam colegas

Por Folha de São Paulo

07/07/2025 16h45 — em
Variedades



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O marceneiro Guilherme Dias Santos Ferreira, 26, morto com um tiro disparado por um PM de folga no último sábado (5), era conhecido por sua personalidade tranquila e sua fé cristã, de acordo com pessoas que conviveram com ele. Casado há pouco mais de um ano, guardou dinheiro para conseguir pagar pelo curso para obter uma CNH (Carteira Nacional de Habilitação), segundo colegas de trabalho.

Ferreira trabalhava há cerca de três anos na fábrica de camas Dream Box, em Parelheiros, na zona sul de São Paulo.

Ele tinha voltado recentemente das férias. Sábado tinha sido seu terceiro dia de trabalho desde que o período de descanso havia terminado.

"Ele era tranquilo, respeitoso, mais quieto do que os outros [funcionários], inclusive por ser muito religioso", conta a comerciante Tais Ferreira, 31, que trabalha numa mercearia a menos de 150 metros de distância da fábrica de camas. O marceneiro fazia compras todos os dias na loja. Pacotes de bolacha, suco, achocolatado e paçoca com chocolate eram seus itens preferidos.

Amigos e conhecidos usaram palavras como respeitoso, carismático, trabalhador, puro e cristão para defini-lo. São-paulino fanático, gostava de falar sobre futebol e estava planejando ir a um jogo no estádio do MorumBis com os colegas de trabalho, segundo uma pessoa que trabalhava na empresa.

Esse funcionário, que pediu para não ser identificado por medo de represália, presenciou, em parte, a ação que resultou na morte de Ferreira.

Ele disse que saiu da empresa cerca de dez minutos após o grupo de funcionários em que estava Ferreira e fez o mesmo caminho, andando em direção a um ponto de ônibus na estrada Ecoturística de Parelheiros.

Gravações de câmeras de segurança mostraram quatro pessoas andando juntas na rua José Roschel Rodrigues, endereço da fábrica, na direção do ponto de ônibus. Era exatamente 22h30, dois minutos depois de Ferreira registrar sua saída e cinco minutos antes do horário de registro da ocorrência.

É comum que os funcionários andem em grupos até o ponto de ônibus ao deixar o local à noite, segundo moradores do bairro e colegas, devido à iluminação insuficiente da rua e o histórico de assaltos nas redondezas

Ao chegar na estrada, a cerca de 800 metros da empresa, esse funcionário que pediu para não ser identificado viu uma viatura da PM, faixas de isolamento, o trânsito parado e pessoas no chão.

Uma das pessoas que havia saído da empresa junto com Ferreira estava de bruços e algemada. O corpo do marceneiro estava ao lado do colega, mas não foi reconhecido inicialmente.

Pouco antes, o policial Fábio Anderson Pereira de Almeida havia reagido a uma tentativa de roubo que teria sido efetuado por motociclistas. Ele fez disparos para dispersar os assaltantes. Em depoimento, o policial disse que minutos depois disparou novamente ao ver um suspeito se aproximando da moto.

Era o marceneiro, atingido na cabeça, enquanto estava de costas.

Membros da gerência da empresa foram até os policiais e relataram que o homem detido havia acabado de sair da empresa. Mostraram inclusive fotos do relógio de ponto —assim como Guilherme, o funcionário detido também havia registrado saída às 22h28 e publicado a imagem do equipamento em seu perfil no Whatsapp.

Os dois ouviram dos policiais que o funcionário era suspeito de roubo e que havia sido reconhecido pelo PM que havia disparado contra o grupo. Essa conversa foi registrada no boletim de ocorrência.

O funcionário algemado no chão contou que logo após o disparo o PM teria ordenado que ele ficasse deitado e o ameaçou de morte. Ele teria ficado cerca de três horas no asfalto ao lado do cadáver do amigo, segundo um dos membros da gerência da empresa.

Uma conversa por mensagens entre a direção da Dream Box, compartilhada com a reportagem, mostra o pesar dos colegas ao saber que o marceneiro estava morto. "Mataram o Gui", diz uma das mensagens. "Não estou acreditando."

Na delegacia, a Polícia Civil constatou que o funcionário não havia participado do assalto e o liberou. Na mochila de Ferreira, foram encontrados uma carteira, um celular, um livro e uma marmita.


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