SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A iniciativa do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, de acelerar a votação de projeto que permite a compra de vacinas pela iniciativa privada sem que doem doses ao SUS deixou parlamentares perplexos e deve sofrer resistência. Uma das surpresas polêmicas do projeto, apresentado pelo deputado Hildo Rocha (MDB-MA), é a que prevê que as empresas poderão abater o valor gasto do imposto de renda. Ou seja, o recurso que elas vão desembolsar para furar a fila será pago por toda a sociedade incluindo os mais pobres. E mais: elas poderão comprar imunizantes via importadoras para tentar acelerar a chegada ao Brasil. O pagamento feito aos intermediários elevará o preço dos imunizantes e também poderá ser abatido do IR. É o camarote com dedução de imposto de renda, diz o deputado federal e ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha (PT-SP). Ele diz que querem perpetuar um fura-fila privadocom recursos públicos. Nenhum país do mundo permitiu isso. Nem a rainha da Inglaterra se vacinou antes das pessoas que estavam antes dela na fila. É um escárnio, diz o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Estão trocando o PNI (Programa Nacional de Imunização, que é público e coordenado pelo Ministério da Saúde) pelo Plano Meu Pirão Primeiro, afirma ele. O projeto permite ainda que a iniciativa privada compre vacinas que não foram aprovadas pela Anvisa. Casou espanto também o fato de uma lei sobre o assunto ter sido aprovada há apenas duas semanas. Ela possibilitava a compra pela iniciativa privada desde que a metade das doses fosse doada ao SUS. Lira passou a defender o novo projeto depois de se encontrar com empresários como Luciano Hang, da Havan, e Carlos Wizard, do Grupo Sforza. O presidente da Câmara afirma que na guerra, vale tudo para salvar vidas. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, participou das negociações da lei já aprovada e afirmou à reportagem que não conhece ainda os termos do projeto apresentado na Câmara. O presidente da Câmara pretende aprovar a proposta a toque de caixa. Deputados apresentaram nesta quarta (31) um requerimento de urgência para que ela seja aprovada o mais rápido possível.