Alemão 2 estreia em mais de 250 salas do Brasil. Em 2014, o primeiro filme ultrapassou a marca de 1 milhão de espectadores, mas era outro mundo, outro Brasil. A pandemia bagunçou o mercado, ainda é só uma parcela do público que frequenta as salas, e ainda por cima a que prestigia os blockbusters de super-heróis. O Homem-Aranha arrebentou nas bilheterias no ano passado. Alemão 2 chega enfrentando a concorrência de Morbius, que entra em 1.750 salas, de 652 cinemas. Isso significa que, nos shoppings principalmente, Morbius estará em diversas salas dos mesmos complexos. Comparativamente, Alemão 2 sai bem menor - 262 salas.
"Nosso filme não é da Marvel, ressignifica o conceito do mocinho e do bandido", avalia Digão. "Quem vive em comunidade sabe que o mundo não se divide em heróis e vilões." Quando fez as entrevistas de Alemão 2, o repórter ainda não havia visto Morbius, e o filme do sueco de ascendência chilena Daniel Espinosa, embora seja superprodução da Marvel, não segue o figurino tradicional.
Espinosa nasceu na Suécia de pais chilenos exilados pelo golpe de Pinochet. O DNA esquerdista manifesta-se no antagonismo básico em Morbius - o cientista, um humanista, um homem ético, versus o financista, o homem do dinheiro, que se lixa para os outros e acha que tudo pode. Digão, ator também em Eduardo e Mônica e Vale Night, todos filmes bons, anunciou que estava empenhado em promover debates sobre Alemão 2 nas comunidades. "É importante que as pessoas se sintam representadas na tela e discutam o que é essencial, a desigualdade."
PONTO DE PARTIDA
Belmonte dá o devido crédito ao produtor Rodrigo Teixeira, que já havia sido parceiro no 1. "O ponto de partida veio dele, e foi um filme do John Boorman, Inferno no Pacífico, transposto para o Brasil das UPPs e das favelas." No Boorman, de 1968, um soldado americano, Lee Marvin, e outro japonês, Toshiro Mifune, encontram-se, e confrontam-se, numa ilha deserta. São apenas dois, levando a violência ao paroxismo. Viram os personagens de Brichta e Digão, só que, agora, ao redor desses, é todo um mundo que se agita. A polícia, a comunidade. Basicamente, um universo masculino, ou que era um universo masculino.
O diretor conta que, desde o início, sempre houve a intenção de empoderar as mulheres. "Para você ter uma ideia, a Freitas, Leandra Leal, era homem e foi transformada em mulher justamente para realçar a participação feminina na polícia, na comunidade, no mundo." De cara, Freitas tem um diálogo esclarecedor com o policial jovem, Gabriel Leone, quando estão entrando disfarçados na comunidade para sequestrar o poderoso traficante. Ele zomba, uma piada machista, diz que está ali para protegê-la. Ela retruca, durona - Gabriel sangra pelo nariz, Vladimir está sob efeito de comprimidos. Os homens fortes, na verdade, estão fragilizados. O próprio Digão, o traficante, está atado porque tem um oponente na comunidade e ele sequestrou sua mulher e filha.
As mulheres da trama incluem Aline Borges, a policial que coordena toda a operação - e descobre o envolvimento de policiais -, Mariana Nunes e Zezé Motta, como a enfermeira que acolhe em sua casa os policiais, e cujo filho estudante foi morto em operação na favela.
Belmonte só tem elogios para seu elenco. "Gosto de fazer trabalho de mesa antes de filmar. Essa coisa de discutir o roteiro, repetir as falas para que o elenco se sinta confortável. Foram ótimos." Belmonte tem uma trajetória curiosa. Começou com filmes autorais, numa pegada experimental. Era queridinho dos críticos, na época de A Concepção, Meu Mundo em Perigo. Foi parar na Globo. Fez séries, filmes maiores. Aumentar seu público, falar para mais gente, não inibiu seu ímpeto autoral. É uma discussão antiga, o cinema como instrumento de discussão política. Filmes para as massas ou para o grupinho de iniciados?
Algo se passou em 2011, quando Belmonte fez Billi Pig. A comédia com Selton Mello, Otávio Müller e Grazi Massafera foi feita para ser um estouro de bilheteria, mas foi um fracasso. Outro teria desanimado, não Belmonte. "Recebi ali as piores críticas da minha vida, mas o filme foi muito importante como aprendizado, porque fiz minha autocrítica e percebi onde havia errado. Foi o filme que realmente me fez pensar, e repensar, o cinema que queria. Não é por estar na Globo, nem fazer filmes grandes, de ação, como Alemão 1 e 2, que estou desistindo de ser autoral. Tudo o que esse país necessita é de um olhar crítico da gente para esse horror que está aí."
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



