RIO DE JANEIRO, RJ E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Brasil tinha 11,8 milhões de pessoas morando em domicílios localizados em áreas de unidades de conservação em 2022, o equivalente a 5,8% da população total do país à época (203,1 milhões).
A conclusão é de um retrato inédito do Censo Demográfico divulgado nesta sexta (11) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
As unidades de conservação são áreas territoriais de importância ambiental, instituídas pelo poder público e protegidas por lei.
Elas estão divididas em dois tipos de manejo: de proteção integral dos recursos naturais (mais restritivas) ou de uso sustentável, que incluem as APAs (áreas de proteção ambiental), onde a ocupação humana é permitida de modo regulado.
O Censo, contudo, não classifica quantos moradores estavam em condição regular e quantos estavam em situação irregular dentro dos territórios. O IBGE diz que essa não é uma atribuição sua na pesquisa.
"Isso exige análises mais aprofundadas por parte dos órgãos responsáveis, que são o ICMBio, na esfera federal, e os órgãos estaduais e municipais", disse Fernando Damasco, gerente de territórios tradicionais e áreas protegidas do IBGE. "É uma limitação do estudo."
O que é possível afirmar, segundo o Censo, é que o país tinha 131,5 mil pessoas morando em domicílios localizados em unidades de proteção integral em 2022.
O número equivale a 1,1% da população residente no total das unidades de conservação (11,8 milhões).
Os espaços de proteção integral devem admitir apenas o uso indireto de recursos naturais (sem exploração ou dano), com exceções de ocupação previstas em lei. Dependendo da unidade, há possibilidade de atividades como pesquisa científica, educação ambiental e turismo ecológico.
Estações ecológicas, reservas biológicas, parques (nacionais, estaduais ou municipais), monumentos naturais e refúgios de vida silvestre são exemplos de proteção integral.
Conforme Damasco, é provável que os 131,5 mil moradores desses espaços estivessem em diferentes situações em 2022.
A lista incluiria pessoas em processos de desapropriação, habitantes irregulares que desobedecem ordens de retirada, grupos sem qualquer notificação para saída e comunidades tradicionais de indígenas ou quilombolas que já existiam antes da criação das unidades.
O Snuc (Sistema Nacional de Unidades de Conservação) foi instituído por meio de lei em julho de 2000.
Já as unidades de uso sustentável buscam conciliar a conservação da natureza e a utilização de uma parcela dos recursos naturais. Em 2022, quase 11,7 milhões de habitantes viviam nesses espaços, indica o Censo. O contingente equivale a 98,7% da população total nas unidades de conservação (11,8 milhões).
Em geral, as APAs, exemplos de uso sustentável, são extensas e constituídas por terras públicas ou privadas, com diferentes níveis de ocupação humana.
Outras unidades de uso sustentável são florestas (nacionais, estaduais ou municipais), reservas extrativistas e reservas particulares do patrimônio natural.
O IBGE ainda contabilizou uma parcela residual de quase 19 mil moradores em áreas marcadas pela sobreposição de unidades de proteção integral e de uso sustentável. Esse número corresponde a 0,16% da população total nas unidades de conservação.
Como o tema é inédito no Censo, não há dados anteriores para comparação.
As 11,8 milhões de pessoas distribuídas nas unidades de conservação superavam a população inteira da cidade de São Paulo (11,5 milhões). O contingente também era maior do que o total de habitantes no estado do Paraná (11,4 milhões).
O universo investigado no Censo é composto por 2.365 unidades de conservação federais, estaduais e municipais (861 de proteção integral e 1.504 de uso sustentável). A pesquisa encontrou 1.138 territórios com moradores (48,1%) e 1.227 (51,9%) sem habitantes.
QUAIS SÃO AS UNIDADES MAIS POPULOSAS?
As unidades de conservação mais populosas são as APAs. Essa categoria de uso sustentável somou quase 11,5 milhões de residentes em 2022 o equivalente a 97,1% do total de 11,8 milhões.
A unidade de conservação com a maior população do Brasil foi a APA do Planalto Central, localizada no Distrito Federal e em Goiás. O território tinha 601,8 mil habitantes em 2022.
As APAs da Baixada Maranhense (583,9 mil) e de Upaon-Açu/Miritiba/Alto Preguiças (510 mil), ambas no Maranhão, e Sistema Cantareira (495,9 mil), em São Paulo, vieram na sequência.
Quando a análise considera somente as unidades de proteção integral (mais restritivas), o Parque Estadual do Bacanga, em São Luís, no Maranhão, mostrou a maior população: 31,9 mil pessoas.
Parques nacionais, estaduais e municipais, como é o caso do maranhense, devem ter o objetivo básico de preservação de ecossistemas, com previsão de desapropriação de áreas particulares em seus limites, conforme o IBGE.
QUASE 40% DO DF ESTÁ EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO
No recorte das unidades da federação, há destaque para o Distrito Federal. Em 2022, 39,2% da população local vivia em áreas de unidades de conservação, percentual mais elevado do país. O Maranhão teve a segunda maior proporção (23%).
Por outro lado, os menores patamares foram encontrados em Roraima (0,5%), Rondônia (0,65%) e Santa Catarina (0,66%).
Os dados indicam que, em 91 municípios brasileiros, 100% da população vivia em domicílios distribuídos em unidades de conservação.
SANEAMENTO TEM PROBLEMAS
O Censo também chama a atenção para problemas de saneamento. Em 2022, 40,3% dos moradores das unidades de conservação (4 em cada 10) estavam em domicílios com pelo menos uma precariedade de abastecimento de água, destino de esgoto ou coleta de lixo. É um percentual bem superior ao registrado na população total no Brasil (27,3%).
As precariedades podem envolver falta de abastecimento de água canalizada até os domicílios; ausência de destinação de esgoto para rede geral, pluvial ou fossa séptica; e inexistência de coleta direta ou indireta de lixo.
Ainda segundo o Censo, 78,7% da população das unidades de conservação vivia em áreas urbanas, enquanto 21,3% morava no meio rural. Entre o total de habitantes no Brasil, esses percentuais foram de 87,4% e 12,6%.



