Entre a Ilusão do "Verdadeiro Novo" e a Onda Conservadora: O Esgotamento do Petismo e a Ascensão de Flávio Bolsonaro
Por Silvio Bringel Batista - Articulista do Portal do Holanda
I - PROLEGÔMENOS
Analisar um programa de governo exige ultrapassar a mera leitura das intenções e examinar o contexto político e histórico de quem o assina. Quando a coligação liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) apresenta as suas diretrizes, a peça transcende a função de plano de gestão para se converter num exercício de retórica eleitoral. O documento estrutura-se sobre uma premissa audaciosa: apresentar um projeto de transformação profunda conduzido por lideranças que ocuparam o topo do Poder Executivo federal por quase duas décadas.
O ponto de partida do texto eleitoral coloca um desafio à lógica política contemporânea ao declarar: “Somos o verdadeiro novo porque enfrentamos o velho sistema que mantém o Brasil no atraso”. É a partir desta afirmação que se estabelece o nó cego da narrativa petista: a tentativa de mimetizar um discurso de ruptura e exterioridade ao sistema sendo, em simultâneo, o ator político mais estruturante e duradouro da governabilidade democrática brasileira do século XXI.
Este artigo propõe-se a desarmar esse paradoxo retórico, analisando a estratégia do partido diante da incontornável cobrança pelo seu próprio passado. Para além de examinar a arquitetura conceitual desse programa, a análise percorrerá o esgotamento do modelo governista e as suas fricções institucionais - notadamente a tensão com o Poder Judiciário -, bem como os reflexos dessa postura no teto de rejeição histórica acumulado pelo presidente Lula. Paralelamente, examina-se a consolidação da alternativa de oposição liderada por Flávio Bolsonaro (22), cujo plano de governo "O Brasil Merece Voltar a Ser o Brasil" canaliza o sentimento de mudança, atrai os eleitores indecisos e mobiliza a dinâmica do "voto útil", projetando um cenário de real possibilidade de definição eleitoral ainda no primeiro turno.
Antes de compreender a ascensão das forças de oposição e as dinâmicas da reta final do pleito, contudo, é preciso lançar luz sobre o mecanismo retórico de que o programa petista se vale para responder ao inevitável questionamento sobre os seus quase 18 anos de gestão. É nesse ponto que o documento articula a sua primeira linha de defesa narrativa, transformando a tese do "desmonte" num escudo contra a cobrança por metas não cumpridas.
II - A ESTRATÉGIA DA DEFESA ANTECIPADA: O "DESMONTE" COMO ESCUDO
Ciente de que qualquer eleitor atento confrontará o programa com a pergunta inevitável - "Por que o Lula e o PT já não fizeram o que prometem agora?" -, o documento articula uma defesa prévia e minunciosamente elaborada. Para esquivar-se da acusação de ineficiência, omissão ou esgotamento em mandatos anteriores, a peça divide a história política recente do país em um conveniente drama em três atos: a "construção" nos primeiros governos petistas, a "destruição" promovida pelas gestões pós-2016 e a "reconstrução" iniciada em 2023.
Na arquitetura desse texto eleitoral, a tese da "herança maldita" é ressuscitada para justificar o relançamento de compromissos históricos que atravessam mais de duas décadas sem conclusão definitiva. Ao atribuir a não concretização ou o desmoronamento de metas estruturais - como a ampliação da infraestrutura logística, a universalização do saneamento básico e as reformas tributária e federativa - aos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, a narrativa desloca convenientemente a responsabilidade para a ação de terceiros. Argumenta-se ostensivamente que o atual mandato teve de ser sacrificado na tarefa de "apagar incêndios", recompor o orçamento e reconstruir as capacidades administrativas do Estado, justificando por que a pauta do presente soa tão idêntica à do passado.
Entretanto, o problema central dessa construção teórica reside na fragilização da própria noção de legado que o partido busca ostentar. Se quase 18 anos no comando direto do Poder Executivo federal não foram suficientes para consolidar ou blindar institucionalmente as suas principais marcas públicas contra oscilações de governos subsequentes, a eficácia de longo prazo de seu modelo de governança continua sob severo questionamento. A necessidade recorrente de "recomeçar do zero" a cada ciclo eleitoral revela um modelo de políticas públicas dependente de vontades conjunturais, em vez de conquistas de Estado perenes e irretrocedíveis.
Mais do que uma justificativa administrativa para o ritmo das entregas, contudo, essa estratégia de autodefesa cumpre uma função ideológica decisiva na peça de campanha. Ao projetar as culpas do presente sobre os adversários passados, o programa prepara o terreno para um salto retórico ainda mais ambicioso: desassociar o partido de sua própria condição de sistema estabelecido para reaparecer perante o eleitorado com uma roupagem renovada. É a partir dessa manobra de autoisenção que o documento se autoriza a vestir a túnica de uma força política intocada pelos vícios do poder.
III - A MÁSCARA DO "ANTISSISTEMA" E O CONCEITO DE "NOVO"
A apropriação explícita do rótulo de "o verdadeiro novo" pelo Partido dos Trabalhadores revela um dos maiores exercícios de malabarismo do discurso eleitoral recente. O sentimento "antissistema" - que ganhou força na política global nas últimas décadas - é, por definição sociológica e política, uma força canalizada por atores emergentes que desafiam as elites estabelecidas e o status quo institucional. Ao tentar vestir essa roupagem revolucionária após ter ocupado o topo do Poder Executivo federal por quase duas décadas, o PT opera uma dupla distorção na percepção do eleitorado:
1. A Extensão Artificial da Condição de Oposição: O texto do programa tenta resgatar o espírito militante e a aura de insurgência dos anos 1980 e 1990. Com isso, apaga-se o processo natural e inevitável pelo qual a legenda se converteu no próprio sistema político do país - gerindo o orçamento da União, ditando a política econômica, nomeando tribunais superiores e ocupando a centralidade das decisões estatais.
2. A Isenção de Responsabilidade sobre os Resultados: Ao culpar um "velho sistema" genérico pelas mazelas estruturais, a baixa produtividade, os gargalos de infraestrutura e a violência urbana que afligem o Brasil, o partido exime-se de prestar contas sobre o impacto direto dos quase 18 anos em que esteve no comando da máquina pública.
Trata-se de uma tentativa de operar uma contradição lógica: o partido busca apresentar-se, ao mesmo tempo, como o garantidor da governabilidade e o seu principal destruidor retórico. Essa máscara do "antissistema" tenta capturar o desejo coletivo de renovação sem pagar o custo político inerente a quem construiu as bases da ordem vigente.
Essa construção narrativa, contudo, desmorona quando confrontada com a dinâmica real do poder em Brasília. A promessa de combater o "velho sistema" esbarra na prática cotidiana de alianças que o próprio partido estruturou para governar. É essa incongruência entre a teoria do programa e a prática da coalizão que expõe os limites da retórica de renovação e conduz diretamente ao próximo nó cego do documento.
IV - AINDA SOBRE O "SISTEMA": GOVERNAR COM QUEM SE PROMETE COMBATER
O maior dilema conceitual do programa de governo reside na deliberada falta de clareza sobre o que seria esse “velho sistema” que o texto promete combater. Na prática do presidencialismo de coalizão brasileiro, a governabilidade do Poder Executivo federal sempre foi e continua a ser viabilizada por alianças pragmáticas com os setores mais tradicionais do Congresso Nacional, concessões periódicas ao chamado "Centrão" e negociações com oligarquias regionais consolidadas.
Afirmar que se representa "o novo" enquanto se governa em simbiose com essas estruturas arcaicas cria um ruído de coerência insuperável para a narrativa eleitoral. Se o Partido dos Trabalhadores financia o sistema via distribuição de emendas orçamentárias, partilha a gestão de ministérios estratégicos com partidos de perfil fisiológico e depende da articulação com essas mesmas forças para aprovar a sua agenda legislativa no parlamento, torna-se logicamente impossível continuar a figurar perante a opinião pública como o seu principal opositor.
Essa ambiguidade expõe o limite do discurso ideológico: a tentativa de manter uma postura combativa para a militância de base enquanto se opera o balcão de negócios da governabilidade tradicional em Brasília. Longe de representar uma ruptura, a prática administrativa do petismo demonstrou capacidade de adaptação às engrenagens do fisiologismo. Essa simbiose funcional entre o governo e as elites políticas que o texto finge combater revela que o "velho sistema" não é um inimigo a ser derrotado pelo programa, mas sim o fiador indispensável da sua permanência no poder.
Essa contradição entre a promessa de transformação e a realidade do fisiologismo não passou despercebida pelo eleitorado. Ao reenviar um programa que insiste em fórmulas desgastadas e no aumento da máquina estatal, o governo acendeu alertas que extrapolaram o debate parlamentar e atingiram em cheio as dinâmicas institucionais do país, preparando o terreno para a derrocada de sua sustentabilidade eleitoral.
A tentativa de mascarar o fisiologismo com uma retórica de renovação acabou cobrando um preço elevado quando o texto do programa foi confrontado com a realidade do mais recente mandato. Longe de ser lido apenas como um conjunto de intenções genéricas, o documento passou a ser percebido pelo eleitorado de centro, de centro-direita e pela sociedade civil, como o sintoma claro de um projeto esgotado, que busca expandir o controle do Estado enquanto se apoia na blindagem institucional de outros Poderes. Foi justamente nesse ponto de inflexão - onde o desgaste do discurso do PT se encontrou com a crescente tensão em torno das decisões do Supremo Tribunal Federal - que o programa de governo deixou de ser uma promessa de futuro para se converter no marco inicial da derrocada política e eleitoral do petismo.
V - O PROGRAMA COMO MARCO DA DERROCADA E A TENSÃO COM O JUDICIÁRIO
Para além dos seus evidentes limites conceituais e das contradições na sua retórica de renovação, o Programa de Governo do PT converteu-se no diagnóstico inicial da derrocada da própria viabilidade eleitoral da reeleição presidencial. Ao reeditá-lo sem apresentar qualquer traço de autocrítica sobre os erros e gargalos de gestões anteriores, e insistindo no aprofundamento da presença e do controle do Estado sobre áreas sensíveis da economia, da comunicação e da sociedade civil, o documento acabou por acender fortes sinais de alerta em amplas parcelas do eleitorado moderado e de centro.
Essa crescente desconfiança acentuou-se e ganhou contornos de alarme institucional com os desdobramentos da crise envolvendo a relação entre o Poder Executivo e o Supremo Tribunal Federal (STF). O debate público ao longo do mandato expôs de forma cristalina o enorme risco de conceder a um eventual próximo governo a prerrogativa constitucional de indicar mais cinco ministros para a Suprema Corte. A perspectiva de uma maioria absoluta do tribunal ser formada por indicações diretas de um mesmo grupo político acendeu o temor de um aparelhamento definitivo do Poder Judiciário.
Essa preocupação generalizou-se a partir do comportamento e das atuações de ministros indicados por Lula (13) - como Flávio Dino, Cristiano Zanin e Dias Toffoli -, cujas decisões em momentos decisivos do debate institucional foram percebidas por setores expressivos da sociedade como barreiras que impediram a apuração isenta e o devido esclarecimento de episódios polêmicos envolvendo a Corte, incluindo as atuações conturbadas do ministro Alexandre de Moraes.
O ápice do simbolismo desse entrelaçamento político-institucional ocorreu em praça pública, durante um evento oficial transmitido ao vivo em Belém, no qual o presidente Lula fez uma ligação telefônica, do próprio palco, para o ministro Flávio Dino com o pretexto de anunciar a sanção de um projeto de lei de autoria do magistrado quando este exercia o mandato de senador. A cena - em que o telefonema foi abruptamente interrompido e não pode prosseguir no viva-voz - escancarou de forma incontestável que a proximidade e a intimidade de caráter político permanecem intactas mesmo após a investidura de Dino na mais alta Corte do país. O episódio maculou frontalmente os princípios constitucionais da impessoalidade e da isenção indispensáveis ao Poder Judiciário, confirmando para a opinião pública que a separação de Poderes havia se reduzido a uma mera formalidade estética.
A percepção de que se consolidou um arranjo de blindagem mútua e camaradagem política entre o Palácio do Planalto e o STF gerou uma profunda sensação de assimetria institucional. Para o eleitor de centro e a classe média urbana - fatias decisivas para a formação de qualquer maioria nacional -, essa dinâmica acenou com o fantasma do hiperpresidencialismo e da erosão das garantias democráticas, assustando o eleitorado moderado que agora enxerga na mudança de rumo a única salvaguarda para o equilíbrio republicano.
A apreensão gerada pela proximidade com o Judiciário e pela ausência de autocrítica não ficou restrita aos bastidores de Brasília ou às análises de bastidor político; ela transbordou para o sentimento popular e contaminou a percepção direta sobre a figura do presidente. O desgaste acumulado pelo governo, somado a declarações controversas e a uma postura de confronto adotada durante os compromissos públicos, corroeu a margem de manobra do petismo e atingiu o coração de sua viabilidade eleitoral. Esse conjunto de fatores atuou como o estopim para que a resistência ao nome de Lula atingisse patamares sem precedentes, registrando o maior teto de rejeição de toda a sua trajetória política e selando o diagnóstico de esgotamento do projeto governista nas urnas.
VI - A PÁ DE CAL: O REGISTRO HISTÓRICO DA REJEIÇÃO
A postura inflamada e as falas controversas adotadas por Lula durante a campanha funcionaram como a pá de cal sobre a sua viabilidade política, atraindo os maiores índices de rejeição da sua história eleitoral. A trajetória da rejeição a Lula ao longo das décadas evidencia essa inflexão:
a) 1989: 26% (Datafolha)
b) 1994: 40% (Datafolha)
c) 1998: 33% (Datafolha)
d) 2002: 30% (Datafolha)
e) 2006: 26% (Datafolha)
f) 2016 (Auge da Lava Jato/Crise do Governo Dilma): 57% (pico histórico fora de disputa direta)
g) 2022: 39% (Datafolha)
h) 2026: A rejeição flutua na casa dos 46% a 52,5% (AtlasIntel/Band - 4 e 9 de setembro de 2026 e divulgado no dia 10 de setembro de 2026 - Registro TSE nº BR-01452/2026).
Ao romper de forma consistente a barreira dos 50% em levantamentos da AtlasIntel, a rejeição atual aproxima-se dos piores momentos do petismo no auge da crise de 2016. Esse teto de resistência inviabiliza o diálogo com a fatia do eleitorado necessária para construir maiorias num segundo turno.
É precisamente esse teto de rejeição histórico que altera de forma drástica a dinâmica da disputa e redefine a geopolítica eleitoral do país. O esgotamento do modelo petista e a incapacidade do governo em romper a bolha da rejeição abriram uma janela de oportunidade inédita para a oposição, permitindo que a insatisfação popular deixasse de ser um sentimento disperso e se organizasse em torno de um projeto alternativo viável.
É nesse ambiente de busca por uma saída pragmática para o país que a candidatura de Flávio Bolsonaro ganha tração, unificando as forças conservadoras e liberais e transformando a hipótese de uma definição do pleito ainda na primeira rodada em uma real probabilidade política.
VII - A ALTERNATIVA DE DIREITA E A HIPÓTESE DE VITÓRIA NO PRIMEIRO TURNO DE FLÁVIO BOLSONARO
A derrocada da candidatura à reeleição de Lula (13), aliada à sua rejeição nas alturas, abriu espaço para a consolidação de uma alternativa competitiva à direita. É nesse cenário de esgotamento do modelo petista que emerge a candidatura de Flávio Bolsonaro (22), cuja plataforma ganha tração justamente ao apresentar um contraponto estruturado ao atual governo através do seu Plano de Governo, intitulado "O Brasil Merece Voltar a Ser o Brasil".
A tese de uma possível liquidação da fatura ainda no primeiro turno deixa de ser mero desejo militante e passa a figurar como hipótese concreta quando se analisa o alinhamento do eleitorado com as propostas do plano, a crise de rejeição do adversário, a movimentação da base indecisa, as pesquisas de projeção de segundo turno e a unificação da oposição:
1. A Resposta Direta às Dores da População (Segurança e Economia): O plano de Flávio Bolsonaro inicia atacando as duas maiores fragilidades da atual gestão: o medo e o custo de vida. Ao propor o eixo "Brasil sem Medo", com tolerância zero ao crime organizado, equiparação de facções a organizações narcoterroristas, o modelo de presídios de segurança máxima "TREVA" e o controle estrito de fronteiras, o candidato dialoga com a pauta de maior apelo popular e aponta para a ineficiência do modelo federal de segurança. No campo econômico, o programa promete o "Brasil Mais Barato", prevendo o "Tesouraço" de impostos e a revisão da Reforma Tributária, atacando diretamente a percepção do eleitor de que o governo petista encareceu o custo de vida através de gastos descontrolados e alta taxa de juros.
2. A "Jornada do Cidadão" e a Desconstrução da Narrativa Social Petista: O plano neutraliza a histórica bandeira da esquerda de que a oposição "acabaria com programas sociais". Ao afirmar que os auxílios sociais são mantidos e aperfeiçoados como ponto de partida para a autonomia - e não como destino final ou dependência política -, o programa remove o fantasma do assistencialismo usado nas campanhas eleitorais do PT. Iniciativas como "Brasil por Elas" (com fomento ao empreendedorismo feminino e vagas de creche garantidas via voucher) e o "Banco da Prosperidade" através da Caixa Econômica atraem o eleitorado de baixa renda e a classe média baixa que se sentem sufocados por impostos.
3. O Movimento do "Voto Útil" e o Efeito Pesquisa Futura: A viabilidade de vitória no primeiro turno ganhou um impulso decisivo com o realinhamento de forças da oposição e os números de projeção de segundo turno. Apesar da manutenção formal da candidatura de Romeu Zema (30), o Partido Novo liberou seus filiados e candidatos para apoiar Flávio Bolsonaro (22) já na primeira etapa. Esse movimento é diretamente influenciado por levantamentos como a Pesquisa Futura de 30/09/2026 (Registro TSE nº BR-01122/2026), que indica que num eventual segundo turno Flávio Bolsonaro aparece à frente com 49%, contra 43,5% de Lula. A constatação de que Flávio é o nome mais forte para derrotar o petismo atua como um catalisador do "voto útil" já na primeira rodada, induzindo o eleitorado oposicionista e lideranças de centro-direita a anteciparem o desfecho das urnas.
4. A Dinâmica dos Indecisos e a Matemática do Voto Útil: As pesquisas apontam um volume expressivo de cerca de 27,7% de eleitores indecisos na modalidade espontânea. Sabendo que a base de apoio de Lula é consolidada por eleitores históricos que votam no petista por razões alheias às dinâmicas da campanha, entende-se que Lula atingiu o seu teto máximo. Historicamente, a maioria dos eleitores indecisos no Brasil opta pelo "voto útil" na reta final. Dado que a rejeição a Lula (13) supera os 50% e a Pesquisa Futura confirma a liderança de Flávio (22) no segundo turno, a tendência de migração desse contingente pende predominantemente para Flávio Bolsonaro (22). Esse afunilamento projeta a consolidação da vitória de Flávio - na minha análise - ainda no primeiro turno, com estimativa de 51% a 55% dos votos válidos.
5. Inimigo Comum e Apelo Institucional ("Brasil que Cumpre a Constituição"): Diante da crise do STF e do descontentamento da sociedade com a hipertrofia do Judiciário, Flávio Bolsonaro (22) apresenta propostas de limitação de decisões monocráticas, fim das competências criminais originárias do STF, proibição da censura estatal ("Tesouraço na Censura") e o compromisso explícito de propor o fim da reeleição para o cargo de Presidente da República. Essa postura republicana e de limitação do próprio poder atrai o eleitor moderado e desiludido com os excessos institucionais do país.
O alinhamento do eleitorado indeciso, o apoio do voto útil das forças liberais e o favoritismo projetado pelas pesquisas de intenção de voto desenham, portanto, um cenário de inflexão histórica nas urnas. O avanço da candidatura de oposição deixa de ser apenas uma reação pontual ao governo para se consolidar como a expressão direta do desejo de mudança de um país saturado pela estagnação econômica, pelas fricções institucionais e pela falta de renovação.
Diante dessa matemática eleitoral desfavorável ao projeto governista petista e do fortalecimento de um plano alternativo focado no equilíbrio e na liberdade, fecha-se a janela para a continuidade do modelo atual, conduzindo inevitavelmente à análise final sobre o esgotamento do ciclo petista e o novo horizonte que se abre para o Brasil.
VIII - CONCLUSÃO
O Programa de Governo do Partido dos Trabalhadores, ao tentar equilibrar-se entre a exaltação ufanista do seu legado histórico e a promessa repetitiva de um "novo começo", acabou por revelar as limitações estruturais de uma força política madura que se recusa terminantemente a assumir o custo da sua própria senioridade.
A narrativa do “verdadeiro novo” pode ter funcionado em ciclos passados como um slogan eficiente para mobilizar a militância de base, mas desmoronou perante a opinião pública diante do desgaste acumulado do governo, do acirramento institucional com o Poder Judiciário - agravado por demonstrações de proximidade política com membros da Suprema Corte - e do atingimento de um teto de rejeição histórico que inviabiliza a repactuação com o eleitorado moderado.
Um partido e uma liderança que ocuparam o centro do Poder Executivo federal por quase duas décadas não podem apresentar-se perante o país como a marreta destinada a quebrar o sistema quando foram, comprovadamente, os seus principais arquitetos e fiadores operacionais. A tentativa de operar a dupla distorção de governar em simbiose com o fisiologismo tradicional em Brasília enquanto se veste a túnica da oposição revelou uma contradição insustentável, transformando a peça eleitoral petista não em um guia de navegação para o futuro, mas no inventário formal do seu próprio esgotamento político.
Em contrapartida, a candidatura de Flávio Bolsonaro (22) consolida-se como a tradução pragmática do desejo de mudança de expressiva fatia da sociedade. Ao apresentar uma plataforma estruturada em torno do combate incisivo ao crime organizado, da disciplina fiscal com o "Tesouraço" de impostos, da garantia de autonomia individual e da recomposição do equilíbrio constitucional entre os Poderes, o seu plano de governo soube dialogar com as principais dores da população. Impulsionada pelo teto de rejeição do adversário, pelo movimento de "voto útil" deflagrado no campo liberal e conservador - respaldado por levantamentos como a Pesquisa Futura (BR-01122/2026), que sinaliza a liderança oposicionista nas projeções de segundo turno -, a oposição atrai a grande massa de eleitores indecisos. Essa convergência de forças aponta para a superação do atual ciclo governista e desenha uma real perspectiva de definição do pleito presidencial ainda na primeira etapa das urnas.
NOTAS E REFERÊNCIAS CITADAS
[1] TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Pesquisa Eleitoral BR-01452/2026. Levantamento de intenção de voto e rejeição presidencial realizado pelo Instituto AtlasIntel/Bloomberg entre 4 e 9 de setembro de 2026. Divulgação em 10 de setembro de 2026.
[2] TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Pesquisa Eleitoral BR-01122/2026. Levantamento de intenção de voto e cenários de primeiro e segundo turno para a Presidência da República realizado pela Pesquisa Futura/AP Exata em 30 de setembro de 2026.
[3] DATAFOLHA. Série Histórica de Rejeição a Candidatos Presidenciais (1989–2022). Acervo e relatórios do Instituto de Pesquisas Datafolha sobre a evolução da rejeição política de Luiz Inácio Lula da Silva.
[4] PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT). Diretrizes para o Programa de Governo da Coligação para o Brasil do Futuro (Eleições 2026). Documento oficial registrado na Justiça Eleitoral.
[5] BOLSONARO, Flávio. Plano de Governo: "O Brasil Merece Voltar a Ser o Brasil". Coligação Oposição Unida, registro no TSE sob o nº 22 (2026).
[6] SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF). Sessão Solene e Transmissão Oficial de Eventos. Registro do evento público em Belém no qual ocorreu o contato telefônico em transmissão aberta entre o Presidente da República e o Ministro Flávio Dino (2026).
[7] INSTITUTO NOVO RESPOSTA. Informativo do Partido Novo sobre a liberação de filiados e diretrizes de apoio ao voto útil nas Eleições Presidenciais de 2026.
[8] CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988. Artigos 37 (Princípios da Administração Pública - Impessoalidade e Moralidade) e 101 a 103 (Composição e Nomeações do Supremo Tribunal Federal).
Silvio da Costa Bringel Batista
(*) O autor é Cristão Evangélico, Doutorando em Teologia pelo Instituto Logos, Consagrado ao Ofício Diaconal pela Igreja Batista em Dom Pedro, Formado em Direito pela UFAM, Pós-Graduado em Direito Civil e Processo Civil, Procurador da Câmara Municipal de Manaus, Advogado, Presidente da Comissão da Advocacia Pública e Membro Titular da Comissão de Apoio Institucional à Gestão Pública da OAB/AM, Corretor de Imóveis, CAC, Antigomobilista, Apresentador do Podcast “Lei é Lei”, ex-Juiz Classista da Justiça do Trabalho, ex-Procurador-Geral da CMM, ex-Diretor-Geral da CMM, ex-Chefe da Consultoria Técnico-Legislativa e ex-Subsecretário Chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Amazonas.
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