Um conto amazônico sobre a generosidade da natureza, a união das famílias e a esperança que floresce mesmo nos tempos difíceis.
Dizem os antigos, naquelas histórias que passam de boca em boca pelas beiradas dos rios amazônicos, que houve um tempo em que uma pequena comunidade vivia preocupada com o amanhã. A pesca andava fraca, a roça não produzia como antes e, em muitas casas, a farinha precisava ser economizada.
Naquela comunidade morava uma menina chamada Iara, curiosa como os pássaros da floresta e cheia de perguntas que nem mesmo os adultos sabiam responder.
Certa manhã, enquanto caminhava com o avô por uma trilha cercada de árvores, ela avistou um cacho carregado de frutos avermelhados e amarelos.
— Vovô, que frutinhos são esses? Parecem pequenas bolas de ouro penduradas na árvore!
O velho sorriu, ajeitou o chapéu de palha e respondeu:
— Minha filha, isso é pupunha! Um presente da nossa floresta. Mas não se engane pela aparência. A maior riqueza desse fruto não está na cor bonita nem no sabor que deixa na boca. Está naquilo que ele nos ensina.
Iara arregalou os olhos.
— E o que a pupunha pode ensinar, vovô?
O avô fez uma pausa, olhou para o rio e começou a contar uma história que, segundo ele, os mais velhos haviam guardado na memória.
O SEGREDO DO FRUTO DOURADO
Conta a nossa lenda que, muitos anos antes, uma grande dificuldade atingiu aquela comunidade. As famílias estavam desanimadas, cada uma preocupada em salvar o pouco que possuía. Os vizinhos quase não se visitavam, e até as crianças haviam perdido a alegria das brincadeiras.
Foi então que uma senhora chamada dona Anunciata, conhecida por sua sabedoria, percebeu que a tristeza estava separando as pessoas mais depressa do que a escassez conseguia enfraquecê-las.
Certo dia, ela apareceu na comunidade carregando um paneiro cheio de pupunhas.
Sentou-se diante de sua casa, preparou um grande caldeirão com água e colocou os frutos para cozinhar. Aos poucos, o aroma começou a se espalhar pelas redondezas.
Era um cheiro acolhedor, daqueles que fazem a gente lembrar da cozinha da avó, do café coado no pano e das manhãs em que a família se reúne antes de cada um seguir seu caminho.
As crianças chegaram primeiro. Depois vieram os vizinhos, os pescadores e as mulheres que retornavam da roça.
Quando a pupunha ficou pronta, dona Anunciata retirou os frutos da água quente e os colocou sobre uma mesa de madeira.
— Venham comer! — convidou.
Um homem aproximou-se e perguntou:
— A senhora vai repartir tudo isso? E se amanhã não tiver mais?
Ela respondeu:
— Amanhã é uma pergunta que ainda não sabemos responder. Mas hoje sabemos que há pessoas com fome diante da nossa porta. A natureza nos oferece seus frutos, e nós precisamos aprender a transformar esse presente em cuidado.
Então, cada pessoa recebeu sua porção. Quem tinha café trouxe café. Quem possuía farinha colocou um pouco na mesa. Quem não tinha nada ofereceu companhia, conversa e ajuda para preparar a próxima refeição.
Naquela manhã, a pupunha fez mais do que saciar a fome. Reuniu pessoas que haviam se afastado, devolveu sorrisos às crianças e lembrou aos adultos que a esperança também precisa ser cultivada.
A MENINA E A SEMENTE DA ESPERANÇA
Iara escutava a história do avô com atenção.
— Mas, vovô, a pupunha fez a dificuldade desaparecer?
O velho sorriu.
— Não, minha menina. Nenhum fruto tem o poder de resolver sozinho todos os problemas do mundo. A pupunha não encheu os rios de peixes nem fez a roça produzir de um dia para o outro. O que ela fez foi lembrar àquelas pessoas que ninguém precisa enfrentar as dificuldades completamente sozinho.
Naquele mesmo dia, Iara decidiu fazer sua parte. Ajudou a avó a preparar pupunhas cozidas, chamou os vizinhos e convidou duas crianças que costumavam brincar sozinhas para se juntarem à família.
A mesa ficou cheia de conversas. O café fumegava nas canecas, a farinha acompanhava os frutos e as risadas voltaram a ocupar o terreiro.
Antes de dormir, Iara perguntou ao avô:
— Então, a pupunha é um fruto de esperança?
Ele acariciou os cabelos da menina e respondeu:
— É isso mesmo. Quando olhares para um cacho de pupunha, lembra-te de que a floresta não nos oferece apenas alimento. Ela também nos convida a respeitar a terra, cuidar uns dos outros e agradecer por aquilo que recebemos.
E dizem, nesta lenda que nasceu da nossa imaginação amazônica, que, desde aquele dia, cada cacho de pupunha passou a carregar uma mensagem invisível: onde existe partilha, a esperança encontra lugar para crescer.
A PUPUNHA E A ALMA DO AMAZONAS
Hoje, a pupunha continua presente em muitas mesas do nosso Amazonas. Cozida na panela, acompanhada de café quentinho, servida no café da manhã ou compartilhada numa conversa entre amigos, ela carrega sabores que atravessam gerações.
Seu amarelo e seu vermelho lembram as cores vivas da floresta. Sua presença nas feiras e nos mercados recorda a importância dos produtores, das comunidades tradicionais e de todos aqueles que ajudam a manter viva a nossa cultura alimentar.
E, quando a manhã amanhece sobre os rios, há sempre uma cozinha onde a água ferve, uma panela que solta seu vapor e alguém que pergunta:
— Já está pronta a pupunha?
Porque algumas tradições não precisam de grandes cerimônias para sobreviver. Basta uma panela no fogo, uma mesa compartilhada e uma história contada com carinho.
A MORAL DA LENDA
A pupunha nos ensina que a esperança não nasce de ter tudo, mas de descobrir o que podemos fazer juntos com aquilo que temos.
A verdadeira riqueza da Amazônia não está somente na imensidão de sua floresta, na força de seus rios ou na abundância de seus frutos. Está também na generosidade de seu povo, na sabedoria dos mais velhos e na capacidade de transformar um simples alimento em gesto de amor.
Que nunca nos falte a pupunha na mesa, o café quentinho na caneca e a disposição de abrir espaço para mais alguém.
Porque, quando a Amazônia reparte seus frutos, ela também reparte sua história, sua identidade e sua esperança.
Cada fruto guarda um sabor; cada história revela uma alma; e cada alma amazônica tem uma história para contar.
Silvia Simões
Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]
Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados nesta coluna não refletem necessariamente o pensamento do Portal do Holanda, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.
Aviso