Início Silvia Simões Humanidade, Sustentabilidade, Meio Ambiente e a Última Arca de Noé
Silvia Simões

Humanidade, Sustentabilidade, Meio Ambiente e a Última Arca de Noé

Silvia Simões
Por Silvia Simões
24/08/2026 12h54 — em Silvia Simões

Tem coisa que só acontece na Amazônia. Aqui, a gente sempre viveu esperando a chuva. Agora estamos vivendo uma situação diferente: esperando a chuva chegar e desconfiando que ela pegou outro caminho.

O calor está daquele jeito que até o ventilador já está pedindo férias. O sol nasce com disposição de quem brigou com a humanidade e decidiu resolver a discussão no grito. O cidadão sai de casa cedo, toma banho e, antes de chegar na esquina, já está precisando de outro.

E aí vem a pergunta que não quer calar:

— Será que hoje chove?

O amazonense olha para o céu, observa uma nuvem lá longe e já começa a fazer promessa. Acende vela, olha para o aplicativo de previsão do tempo, consulta o vizinho e, se bobear, pergunta até para o papagaio:

— Vai chover?

O papagaio, sabiamente, permanece calado. Ele também não quer se comprometer.

Estamos vivendo uma espécie de Arca de Noé ao contrário. Na história bíblica, Noé recebeu a missão de construir uma grande embarcação porque vinha água para todo lado.

Aqui na Amazônia, se continuar desse jeito, vamos ter que construir a arca antes que a água desapareça de vez.

E o mais curioso é que a nossa arca teria de ser adaptada à realidade amazônica. Em vez de grandes estoques de comida para enfrentar o dilúvio, o cidadão teria que levar água mineral, gelo, ventilador, sombrinha, repelente e, principalmente, muita paciência.

Porque o calor está democrático: pega rico, pobre, trabalhador, empresário, estudante, político, eleitor e até quem vive dizendo que “não sente calor”.

Sente sim. Só não admite.

E nessa história toda aparece uma palavra que muita gente gosta de falar, mas pouca gente gosta de praticar: sustentabilidade.

A humanidade passou décadas tratando o meio ambiente como se a natureza tivesse cartão de crédito sem limite. Tiramos, derrubamos, queimamos, poluímos, ocupamos, exploramos e depois perguntamos, com a maior cara de inocência:

— Mas por que está tão quente?

Ora, meu amigo, a floresta não é ar-condicionado de shopping que funciona apertando botão. A Amazônia tem papel fundamental no equilíbrio ambiental, mas também tem seus limites. E quando a natureza começa a mandar a conta, ela não manda boleto. Manda calor, seca, fumaça, eventos extremos, alteração no regime das chuvas e uma coleção de problemas que ninguém consegue resolver apenas com discurso bonito.

O amazonense conhece a chuva. Conhece aquele temporal que chega sem pedir licença, transforma rua em igarapé, faz o telhado cantar e deixa todo mundo correndo para recolher roupa do varal.

Mas agora estamos diante de outra realidade: céu carregado de esperança e chão seco de preocupação. Aí começa a conversa sobre El Niño, mudanças climáticas, desmatamento, queimadas e alterações ambientais. Tudo parece assunto distante até o cidadão sair de casa às duas da tarde e sentir que está sendo assado em fogo baixo.

A verdade é que não dá mais para falar de meio ambiente apenas em conferência, seminário ou discurso oficial. Sustentabilidade precisa sair do papel e entrar na vida cotidiana. Precisa estar na árvore que não foi derrubada.

Na nascente protegida. No lixo que foi colocado no lugar certo.

Na floresta preservada. Na cidade que respeita suas áreas verdes. Na fiscalização que funciona.

E também na consciência de cada um. Porque não adianta reclamar do calor e continuar tratando a natureza como se fosse terreno baldio. A Amazônia não precisa apenas de discursos sobre preservação. Precisa de atitude. Enquanto isso, nós seguimos aqui.

Olhando para o céu. Esperando aquela nuvem escura aparecer no horizonte.

Quando ela aparece, ninguém quer saber se vai molhar roupa, alagar rua ou derrubar internet. O amazonense só olha e diz:

— Agora vai!

Aí cai meia dúzia de pingos. O chão levanta aquele cheiro bom de terra molhada.

A esperança renasce. Mas a chuva vai embora mais rápido que promessa de político depois da eleição. E ficamos novamente olhando para cima. Talvez a verdadeira Arca de Noé do nosso tempo não seja uma embarcação feita de madeira. Talvez seja a própria floresta. E se quisermos que ela continue existindo para proteger a humanidade, precisamos parar de esperar o dilúvio para descobrir que a água era importante.

Porque, pelo andar da carruagem — ou melhor, pelo andar da nuvem — qualquer dia desses Noé chega por aqui, olha para o céu, olha para o rio e pergunta:

— Cadê a água?

E o caboclo amazonense, com aquela calma que Deus lhe deu, responde:

— Rapaz... estamos esperando ela chegar. Se chegar, avisa a gente.

Enquanto isso, o ventilador continua trabalhando.

E a Amazônia continua pedindo socorro.

Porque até a última Arca de Noé precisa de água para navegar.

Silvia Simões

Silvia Simões

Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]

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