No interior do Amazonas, onde até o silêncio da madrugada parece saber das coisas, aconteceu uma daquelas histórias que o caboclo conta, aumenta um pouquinho, coloca mais uma pimenta e termina dizendo:— “Eu não sei se é verdade, mas que aconteceu, aconteceu!”
Pois então...
Certa madrugada, um cidadão conhecido nas redondezas por suas habilidades pouco recomendáveis resolveu fazer uma visita que não estava exatamente na agenda de ninguém.
O homem escolheu como alvo a casa do delegado.
Agora pense comigo, leitor:
O sujeito não escolheu a casa da tia que dormia com a porta aberta.
Não escolheu a casa do comerciante que deixava a janela da cozinha encostada.
Não! O homem olhou para a residência do delegado e deve ter pensado:
— “É ali mesmo. Hoje eu quero trabalhar com emoção!” E emoção era o que não faltava.
A casa tinha cerca elétrica, muro com concertina, dois pitbulls de plantão e, para completar o pacote, o próprio delegado estava armado dentro da residência.
Era praticamente uma fortaleza.
Se tivesse uma placa dizendo “Favor não entrar, aqui mora o delegado”, ainda assim o ladrão provavelmente responderia:
— “Obrigado pela informação.” E entrou!
Não se sabe até hoje se o homem tinha coragem, conhecimento técnico ou simplesmente não tinha juízo mesmo. O fato é que conseguiu entrar na casa, fazer o serviço e sair levando alguns objetos.
No dia seguinte, a cidade estava em polvorosa.
O delegado, indignado, olhando para a situação, provavelmente pensou:
— “Eu passo a vida prendendo ladrão e agora o ladrão resolveu me prender dentro da minha própria casa!”
Depois de uma investigação, o sujeito acabou preso.
E aí entra em cena o nosso repórter.
O jornalista, curioso como todo bom repórter do interior, chegou à delegacia para fazer aquela entrevista exclusiva. Mas antes de conversar com o preso, resolveu falar com o delegado.
Olhou para o homem e perguntou:
— Delegado, como foi que esse cidadão conseguiu entrar na sua casa? O senhor tinha cerca elétrica, concertina, dois pitbulls e ainda estava armado!
O delegado, ainda tentando entender a própria desgraça, respondeu:
— Meu amigo, se eu soubesse como ele entrou, ele não teria entrado!
O repórter agradeceu e foi conversar com o preso.
Chegou diante do homem, ajeitou o microfone, respirou fundo e mandou:
— Meu amigo, sua história é, no mínimo, emblemática. Você entrou na casa de um delegado que tinha cerca elétrica, concertina nos muros, dois pitbulls e ainda estava armado dentro da residência. Mesmo assim, conseguiu furtar a casa do cidadão. Eu gostaria que você explicasse para nossos ouvintes como conseguiu realizar essa façanha.
O ladrão ficou olhando para o repórter. Silêncio. Coçou a cabeça. Olhou para os lados. E respondeu:
— Olha, seu repórter... entrevista eu até posso dar.
O jornalista se animou:
— Então explique para a gente!
O ladrão levantou o dedo, fez aquela cara de quem estava prestes a revelar o segredo da humanidade e completou:
— Agora, revelar o segredo da minha profissão... jamais!
O repórter ficou parado.
O delegado ficou olhando.
O policial que estava perto tentou segurar o riso.
E o ladrão, muito sério, completou:
— Cada profissão tem seus segredos. O senhor não pede para o padeiro ensinar a receita do pão, pede? Então não venha querer descobrir como é que eu passo pela cerca elétrica!
O repórter insistiu:
— Mas pelo menos diga se foi difícil!
O ladrão respondeu:
— Difícil foi escolher a casa. Entrar foi consequência.
Aí o repórter perdeu a entrevista.
Não porque acabou a pergunta.
É porque acabou foi o juízo!
E foi assim que o homem saiu da entrevista sem revelar o segredo da profissão.
No interior, até hoje, ninguém sabe exatamente como ele conseguiu passar pela cerca elétrica, pela concertina e pelos dois pitbulls.
Mas uma coisa ficou provada:
o homem podia até ser ladrão, mas tinha ética profissional.
Segredo de profissão é segredo de profissão.
E, como dizem lá pelas bandas do Amazonas:
“Pode contar o crime, pode contar a história, pode até contar vantagem... mas o pulo do gato, meu amigo, esse fica guardado!”
Moral da história:
Na vida existem três coisas que ninguém revela facilmente: a receita da avó, o segredo do tacacá e o método de trabalho de um ladrão profissional.
E o nosso personagem, pelo jeito, não queria concorrência!
Silvia Simões
Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]
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