Por Will Dunham
6 Nov (Reuters) - Para os antigos maias, o cinábrio — um mineral de cor vermelha vibrante — tinha um profundo significado sagrado, representando o sangue, a vida e a alma. Eles o utilizavam amplamente como pigmento em murais e templos, além de empregá-lo em cerimônias e ritos funerários. O que eles não sabiam é que o cinábrio é composto principalmente por mercúrio, que pode ser altamente tóxico.
Pesquisas anteriores mostraram como o mercúrio do cinábrio deixou contaminação duradoura nos locais de certas cidades maias antigas, como Tikal, na Guatemala. Um novo estudo revela que essa contaminação era mais generalizada do que se sabia anteriormente e documenta como o mercúrio, após se infiltrar no solo e nos corpos d’água ao redor, se mostrou mortal para muitos organismos aquáticos.
Os pesquisadores obtiveram amostras de núcleo do fundo de lagos em duas antigas cidades maias na península de Yucatán, no México — o sítio bem estudado de Coba e o pouco conhecido de Xcach.
As amostras mostraram um pico de mercúrio em Coba, com início por volta de 250 d.C. e duração de cerca de 150 anos, coincidindo com o início da era de ouro da civilização maia, conhecida como Período Clássico. Em Xcach, houve um pico por volta de 125 d.C. a 200 d.C., pouco antes do Período Clássico; em seguida, um segundo pico mais ou menos na mesma época que o de Coba; e um terceiro pico de aproximadamente 535 d.C. a 820 d.C., que se estendeu até cerca do fim do Período Clássico.
O estudo documenta a contaminação por mercúrio nas planícies do norte da região maia, uma área onde os registros sobre mercúrio eram até então escassos, e revela algumas das maiores concentrações de mercúrio já registradas na era maia.
Muitas das grandes cidades maias entraram em colapso e foram abandonadas no final do Período Clássico. Várias hipóteses foram apresentadas para explicar essa calamidade, incluindo mudanças climáticas e guerras. A nova pesquisa sugere o envenenamento por mercúrio como um fator adicional.
“Nosso estudo mostra que os limites estabelecidos pelas regulamentações modernas de toxicologia e poluição foram amplamente ultrapassados nos níveis mais tóxicos durante séculos nas proximidades de Coba e Xcach”, afirmou o paleolimnologista Matt Waters, professor de ciências ambientais da Universidade de Auburn, no Alabama, e autor principal do estudo publicado na revista Science Advances.
“Além disso, medimos vários marcadores biológicos nos sedimentos, como bactérias, algas, cianobactérias, organismos com concha e mosquitos, que diminuíram ou desapareceram nos lagos, o que significa que o mercúrio havia se infiltrado em vários níveis da cadeia alimentar”, disse Waters.
O mercúrio no corpo humano pode causar danos ao sistema nervoso central, ao cérebro, aos rins, aos pulmões e ao coração.
“Embora não demonstremos isso em nossos registros de sedimentos, esse movimento trófico sugere que o povo maia pode ter sido exposto ao mercúrio por meio do consumo de água ou peixes”, disse a coautora do estudo Savanna Wooten, pesquisadora de pós-doutorado no Jones Center, no centro de pesquisa Ichauway, na Geórgia.
“Essa pesquisa pouco contribui para vincular diretamente o mercúrio ao declínio das cidades maias da Era Clássica. Mas acrescenta mais um fator de estresse à crescente lista de pressões ambientais e climáticas documentadas como tendo ocorrido simultaneamente com os maias do Período Clássico”, acrescentou.
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